Desde seu crescimento no século XVIII, o boxe já sofreu bastantes mudanças. Antes de 1872, o esporte era praticado na clandestinidade, sem o uso de luvas e bastante brutal. Com regras entrando em vigor, como o uso obrigatório das luvas, tempo específico de assaltos e os dez segundos, ele se tornou um dos esportes de maior prestígio no mundo – mesmo que muitos ainda o considerem violento.

O tema já foi bem apresentado no brasileiro Mais Forte que O Mundo: A História de José Aldo (2016). Agora, 10 Segundos para Vencer chega e aprofunda ainda mais o assunto. Não só questionando sobre a intensa rotina de treinamentos diários que o esporte exige, como mostra as batalhas que os profissionais devem enfrentar para crescer nesse mundo. É uma história que fala de escolhas e decisões.

Como no filme de José Aldo, 10 Segundos para Vencer também é baseado em uma história real – neste caso, do boxeador brasileiro Éder Jofre. Bicampeão mundial, ele é considerado um dos maiores profissionais de todos os tempos no esporte. Nessa cinebiografia, acompanhamos desde sua infância difícil nos anos 40, morando no bairro do Peruche (SP), até a sua consagração como campeão mundial. Na fase adulta, Daniel de Oliveira é quem dá vida ao boxeador.

Todas as cenas do jovem Éder são ótimas para mostrar a sua personalidade – como quando descobrimos o seu dom para os desenhos. O trabalho de reconstrução e ambientação da época é primoroso, desde os figurinos até a decoração. Porém, existe um salto muito brusco para o ano de 1957 – deixando uma espécie de buraco na história do personagem, já que alguns anos de sua adolescência não são apresentados em tela. E são anos que, caso aparecessem, deixariam a construção dele mais rica.

A relação com o pai Kid Jofre são marcadas por momentos intensos e emocionantes. Os embates entre Daniel de Oliveira e Osmar Prado rendem as melhores cenas do longa – inclusive uma que faz referência à Karate Kid. Ambos os atores estão incríveis em seus papéis. Oliveira mais uma vez demonstra todo o seu talento na arte da interpretação e se encaixa perfeitamente como o Éder – inclusive fisicamente. Prado também se destaca muito como Kid, mostrando excelência em sua performance – seu prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado 2018 foi mais do que merecido.

A mesclagem com cenas reais não é um recurso inédito neste tipo de obra. Mas aqui, essa linguagem visual é essencial. Na maior parte das vezes ela é utilizada em preto e branco, entrando em momentos-chave e fortalecendo a veracidade dos acontecimentos. A edição é excelente e também sabe trabalhar os cortes das cenas, principalmente nas sequências de briga.

Apesar de todo esse excelente trabalho, existem dois grandes problemas: o primeiro é a caracterização. Enquanto Oliveira consegue se passar por jovem e depois mais adulto, por causa das mudanças no visual (cabelo e roupas), isso não acontece com seus companheiros de elenco. Sandra Corveloni e Keli Freitas, apesar de estarem bem em seus papéis, não aparentam mudar com o passar dos anos. Nem mesmo o próprio Prado – somente vemos que o tempo passou para ele com o cansaço do personagem.

O segundo é o terceiro ato. Nele, o filme perde um pouco do seu bom ritmo, se tornando arrastado. Várias questões são inseridas sem um equilíbrio adequado, para que elas sejam devidamente processadas e coerentes com o que já foi visto. Tudo fica bastante corrido, prejudicando parte do apelo emocional da história.

Mesmo com esses erros, o resultado final de 10 Segundos para Vencer é bastante positivo. Tudo que Éder viveu não só construiu quem ele é, como também nos proporcionou uma história com questionamentos e pensamentos interessantes sobre como o boxe é visto na sociedade. E como a vida é feita de escolhas.

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