Blockbusters têm um problema bastante recorrente, que os cineastas persistem em errar: roteiro. Por mais que esses produtos tendam ao apelo visual, em detrimento de uma história mais refinada – com raras exceções, como Vingadores: Guerra Infinita – é muito complicado quando não existe um equilíbrio entre efeitos e uma trama profunda. Este é o caso de Alita: Anjo de Combate, a nova aposta arrasa-quarteirão de Hollywood.

A ideia de James Cameron e Robert Rodriguez, de adaptar o mangá escrito por Yukito Kishiro, começou há 20 anos atrás. Cameron se apaixonou pelos quadrinhos, pela força da protagonista e em como ela era diferente do que já tinha visto, imediatamente fazendo com que o diretor quisesse trazê-la para as telonas. Possivelmente, os recursos tecnológicos foram o maior empecilho para que o projeto parasse e só chegasse agora até nós. Dessa forma, é visível o quanto ele é sustentado nisso, pois o resultado visto na projeção é de um longa com proporções épicas, mas sem um argumento sólido.

Ambientado no ano de 2563, a história começa quando o Dr. Dyson – personagem de Christoph Waltz – encontra Alita (Rosa Salazar) em meio a um lixão de sucatas. Tendo uma conexão instantânea com a ciborgue, ele a reconstrói e batiza com o nome. À medida que Alita vai entendendo onde está, conhecemos junto com ela a Cidade de Ferro – um lugar apocalíptico e desolado, mas com alta tecnologia. Logo, então, notamos a estética cyberpunk que a produção adotará.

De fato, visualmente Alita: Anjo de Combate impressiona. As cenas de ação são empolgantes e criativas; o universo futurístico ao qual somos inseridos tem inspirações coloridas nas favelas brasileiras (como o próprio Cameron disse em entrevistas); e o mistério que envolve a cidade de Zalem desperta a curiosidade. O principal ponto é que esse mundo totalmente novo é simplesmente jogado para o espectador, sem prévias explicações. Informações, como A Queda (algo que devastou o planeta), não ganham desenvolvimento. Descobrir tudo através dos olhos de Alita seria interessante, se isso não resultasse em uma excessiva quantidade de diálogos expositivos – a máxima “não conte, mostre” soa extremamente necessária aqui. Acaba também que, independente da fidelidade com o material fonte, a adaptação se torna uma avalanche de clichês, com direito a romance adolescente genérico e conveniências do roteiro.

Em meio a isso, somos apresentados a vários personagens que não ganham apropriados backgrounds. Assim, eles acabam se tornando muito rasos, sem reais motivações e nos impedindo de acreditar em suas mudanças propostas pela trama – Hugo (Keean Johnson), o interesse amoroso da protagonista, é bastante questionável diante de suas atitudes com os ciborgues. Isso desperdiça atores como Mahershala Ali e Jennifer Connelly, que entram e saem de cena sem nada a dizer. Ambos simplesmente interpretam vilões caricatos, com um deles funcionando de fantoche para o inimigo maior: Nova (Edward Norton), que será trabalhado na futura sequência, como propôs o gancho no final.

Soa até irônico dizer que Alita seja a personagem mais humana. Ela é a verdadeira alma do filme, e muito disso se deve ao seu carisma e a interpretação de Rosa Salazar. Através de um belíssimo trabalho de captura de movimentos, percebemos todas as expressões faciais e os olhos grandes e vivos que criaram para ela. Com uma boa dose de dramaticidade, a sua jornada é emocionante e, no momento que seu instinto de luta adormecido surge, é quando o longa ganha o ritmo ideal para o envolvimento com a história. Apresentar um protagonismo como esse é o grande acerto, pois ela representa a esperança para um povo que vive em uma desigualdade social.

Alita: Anjo de Combate estabelece conceitos e insere detalhes para a criação de uma franquia, esquecendo-se de ser um filme que funcione por si só. O fraco roteiro torna tudo raso, previsível e sem criar expectativa pelo que está por vir, se apoiando apenas no espetáculo visual e na força de sua personagem principal. Uma duração extensa para pouco conteúdo.

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