“Por trás de todo grande homem existe uma grande mulher”… Quantas vezes já ouvimos essa frase? O mito da musa inspiradora ou da esposa cuidadora se impregnou na nossa sociedade com tamanha força, que naturalizamos afirmações androcentristas como essa. Afinal, a posição das mulheres não pode se limitar às citadas. Infelizmente, ainda tem gente que não concorda com isso, inclusive em meios mais intelectualizados. É a partir dessa questão que A Esposa, filme baseado no livro de Meg Wolitzer, trabalha.

A trama conta a história de um autor famoso, que ao ganhar o Nobel, leva sua esposa e seu filho para a cerimônia, em Estocolmo. À medida que o tempo passa, tensões entre o casal aumentam, dada a crescente insatisfação da esposa diante do comportamente do marido e de toda a situação. Com isso, segredos antigos são revelados, mudando completamente o retrato dos dois. Aos olhos do espectador, o tal autor, interpretado por Jonathan Pryce (o Alto Pardal, de Game of Thrones), passa de um respeitável intelectual e pai de família para um patético e inseguro narcisista. Pryce consegue passar muito convincentemente o carisma e a insegurança do personagem – dois aspectos fundamentais para a sua composição.

Porém, o show aqui é de Glenn Close. No papel da contida esposa, a atriz consegue passar uma vasta gama de sentimentos, algumas vezes através de uma única expressão facial. Vemos seu desconforto aumentando conforme sua “máscara” começa a cair, graças a seus olhares desviados, olhos lacrimejantes e sorrisos forçados. Chegando ao clímax, tudo é colocado para fora, em diálogos enfervecentes conduzidos com muita habilidade pela atriz. O controle emocional que ela apresenta é impressionante, tornando-a digna de todos os elogios e prêmios que tem recebido ao longo da temporada.

O resto do elenco, por outro lado, fica devendo um pouco, se comparado com os dois principais. O único que tem um mínimo de destaque é Christian Slater, que faz um jornalista ambicioso interessado na vida do personagem de Pryce. Só que sua interpretação não se distancia tanto de sua persona, tão perceptível em clássicos como True Romance. Tanto a atuação dele quanto a dos outros coadjuvantes funcionam para a história que querem contar, mas há uma discrepância evidente entre eles e o casal protagonista.

Tudo isso é relevado, porém, pela qualidade do roteiro de Jane Anderson. Ela constrói todo o cenário amarrando presente e passado, além de se utilizar apropriadamente de muitas metáforas e elementos metalinguísticos. Em dados momentos, parece até escrachado, mas nunca perde a elegância, que é reforçada pela direção de Björn Runge. O sueco valoriza bastante os luxuosos sets, mas sem tirar o foco do elemento humano. Assim, nos proporciona muitas cenas centradas na intimidade do casal, que não só nos revelam aos poucos a toxicidade da relação, como também servem para ostentar os talentos de Close e Pryce. A proximidade dos dois se torna muito crível para o espectador, apesar do egocentrismo de um e da repulsa da outra. Esse efeito também se deve muito à edição, que possui uma ótima economia de cortes, e à fotografia, que realça a distância emocional entre os personagens com sua paleta de cores frias.

Para além de todas as competências técnicas da equipe, o filme é importante pelo “tapa na cara” que representa para a comunidade científica. Pode ser lido como uma analogia para toda a exclusão pela qual as mulheres passaram (e ainda passam) nesse meio. Exclusão que é evidenciada pelas suas ausências em solenidades e catálogos, ainda que elas representem metade da população mundial. Por isso, a luta delas por protagonismo é tão necessária – e ela ganha forma no longa. Sendo assim, além de um drama bem feito, A Esposa é um filme socialmente relevante.

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