Um mestre em sua arte deixa de fazer o que ama por questões financeiras. Seus produtos, em tempos atuais, não vendem mais. Então, começa a carregar lixo entorpecente para ganhar um dinheiro extra, além de se manter ocupado. Assim – pensa ele –  poderia comprar coisas legais para a sua família e compensar por anos de ausência. Ele é bom no que faz, sempre entregando o que lhe é pedido, mas começa a despertar a raiva de alguns pois o faz de forma muito desregrada. Essa poderia ser a história de muitos artistas engolidos pela indústria, mas é a premissa de A Mula, novo filme do veterano Clint Eastwood. Na trama, acompanhamos Earl Stone, um idoso que começa a trabalhar como mula (transportador de drogas) para o tráfico.

O roteiro de Nick Schenk é baseado numa história real, mas evidentemente tomou muitas liberdades poéticas na hora de recontar os fatos, dando margem para o diretor se apropriar da trajetória do protagonista. Não se sabe o quanto de Eastwood tem em Stone, mas a decisão de estrelar no próprio filme (após mais de 10 anos sem fazê-lo) e o nível de empatia que é conferido ao personagem principal tornam a história extremamente pessoal.  Isso também se deve muito à atuação de Eastwood, que passa sentimentos muito verdadeiros.

Aqui, tanto como ator quanto como diretor, ele está completamente despido – o que requer muita coragem. Tudo que é colocado em tela soa mais como um desabafo do que um trabalho corriqueiro para o cineasta. Sim, seus filmes costumam ser bastante expressivos com relação a diferentes temas (Sully como uma carta de amor à classe trabalhadora estadunidense, Os Imperdoáveis como mea culpa pelo Western,…), mas poucos são tão alegóricos quanto A Mula. Não é só sobre um homem transportando drogas, mas também sobre decisões que tomamos na vida, principalmente no que diz respeito à condução da vida profissional e sua conciliação com a pessoal. Também é sobre se impôr contra lógicas desumanizantes de mercado ao simplesmente ser quem você é.

Talvez por isso o longa tenha um aspecto um tanto quixotesco, com o protagonista constantemente reclamando das tecnologias que tomam conta de nosso cotidiano e demonstrando completa alienação quanto a questões contemporâneas. Pode ser somente um traço natural do personagem, mas são momentos muito enfáticos, que evidentemente buscam tirar alguns risos do espectador. O pior é que alguns deles estão completamente deslocados da trama, passando a impressão de que só estão ali para banalizar questões importantes para boa parte da população mundial. Porém, o filme se esforça para não tornar Earl uma simples caricatura de sua geração. É um homem repleto de conflitos internos, mágoas e determinação, como os melhores personagens do diretor. Apesar de repetitivo e infundado, tudo que ele fala soa autêntico.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito dos outros personagens do filme – principalmente os narcotraficantes. Não que o longa caia em maniqueísmos baratos, como em American Sniper. Ele reconhece que há pessoas boas e ruins nos dois lados da guerra, mas o problema maior está na maneira estereotipada pela qual estão retratadas. Desde os traficantes até os membros de sua família (a neta compreensiva, a filha rancorosa e etc), todos são meras peças para montar o quebra-cabeças particular de Eastwood. Isso é uma pena, pois grandes nomes como Laurence Fishburne, Dianne West e Andy Garcia acabam sendo subaproveitados. Como consequência, qualquer drama induzido pela relação de Earl com algum dos outros personagens é inefetivo.

Outra consequência óbvia é que, em termos de representatividade, o filme é extremamente raso (e potencialmente ofensivo), principalmente com relação aos latinos: todos são, de alguma forma, associados ao tráfico. A única exceção é o personagem de Michael Peña, que é um agente da lei. Mas sua participação é muito limitada, sendo reduzido ao papel de parceiro do Bradley Cooper, que é o único coadjuvante com um pouco mais de nuances (como sempre, ele entrega uma boa interpretação). Há uma tentativa de criar uma dinâmica de pai e filho entre Earl e o personagem de Ignacio Serrichio, mas a relação entre os dois não é suficientemente desenvolvida para isso (apesar da boa química que eles têm).

Mas, assim como seu protagonista, Eastwood dirige como quer, simplesmente pelo prazer da viagem. Entre erros e acertos, exposições grosseiras e elegantes metáforas, ele segue seu percurso, até chegar ao esperançoso destino. No final, fica a sensação de que o filme foi feito mais para ele do que para qualquer outra pessoa, mas é justamente isso que torna A Mula uma experiência interessante – principalmente para os fãs do diretor.

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