Em plenos anos 1950 no Brasil, as mulheres desempenhavam um papel estritamente tradicionalista, com a prática dos “bons” e “velhos” costumes. O casamento era visto como prioridade e maior objetivo na vida de uma dama. Além disso, as revistas femininas traziam obrigações que as esposas teriam no matrimônio e expressavam pontos de vista masculinos sobre as mulheres. A Vida Invisível situa-se nessa época, nos mostrando como era viver nesse cenário através das irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida Gusmão (Julia Stockler). Vale dizer: não ache estranho caso você consiga observar essas situações atualmente, pois muito se conquistou, mas também muito não mudou – o que faz o longa ser ainda mais reflexivo.

Desde os primeiros minutos, observamos o enorme amor fraternal que une as irmãs, junto também das diferenças que existem entre elas. Enquanto Guida é ousada, sonhadora e questionadora, Eurídice é mais tímida, realista e resignada. Quando, então, uma atitude do pai (Antônio Fonseca) as separa, acompanhamos todas as situações e dificuldades pelas quais elas passam. Esse paralelo, sempre desenvolvido com naturalidade, funciona justamente pela boa construção desse carinho das protagonistas. Assim, a genuína dramatização da história torna praticamente impossível para o público não embarcar nessa jornada de ares novelescos.

Baseando-se no livro A Vida Invisível De Eurídice Gusmão, da autora Martha Batalha, era obviamente preciso ter um olhar feminino. Logo, o diretor Karim Aïnouz e o roteirista Murilo Hauser entrevistaram mulheres entre 70 e 90 anos (idade que comprova a vivência na época do filme). Claro que, ainda assim, torna-se uma visão masculina sobre as situações, porém, esse laboratório nos bastidores traz parte do lugar de fala que A Vida Invisível tanto precisava. O roteiro retrata o Brasil patriarcal (que ainda persiste em existir), não apresentando julgamentos sobre as escolhas das protagonistas. Na verdade, o projeto apenas traz um ponto de vista analítico, de como o machismo é um parasita que impede a evolução da sociedade. Os desdobramentos originados da postura do pai são angustiantes, principalmente porque percebe-se que, se não fosse por isso, tudo seria diferente.

A cinematografia também reforça a visceralidade do A Vida Invisível, alternando entre ambientes decadentes e outros mais refinados (indo de acordo com a ideia da trama). Existe também a predominância do azul e vermelho, equilibrando-se com a temática social abordada, construindo uma fotografia dominada por tons quentes e frios. Em aspectos mais profundos, os significados dessas cores (serenidade e monotonia para o azul, e energia e paixão para o vermelho) estão diretamente relacionadas às situações apresentadas no longa. Quem já está familiarizado com obras de Aïnouz, como Madame Satã (2002) e Praia do Futuro (2014), não irá se surpreender tanto, mas pelo menos pode admirar o perfeito alinhamento visual.

Através de cartas, Guida tenta manter o contato com a irmã e, considerando o que vamos aprendendo ao longo do filme, o conteúdo delas fica cada vez mais doloroso. É tamanha a intensidade com que Julia Stockler faz a leitura em off dessas cartas, colocando um misto de alegria e desesperança em seu tom de voz. Aliás, ela e Carol Duarte são verdadeiras forças da natureza, estando totalmente entregues aos papéis. As interpretações de ambas as atrizes, através de olhares e gestos pontuais, dão veracidade às personagens, nos fazendo torcer pelo reencontro entre as duas.

O elenco inteiro está sensacional, mas, entre os coadjuvantes, dois nomes se destacam: Gregório Duvivier (Antenor) e Maria Manoella (Zélia). Ele, fazendo o marido de Eurídice, mostra diferentes nuances em sua atuação, com momentos cômicos e outros puramente estúpidos. Já Maria faz uma personagem essencial para a vida de Guida, em uma interpretação bastante sensível e emocionante. É uma escalação de atores incríveis, todos dando forças para a narrativa.

Durante o filme, existem alguns momentos que se estendem além do que deveriam. Porém, o maior desequilíbrio está na mudança para o ato em que entra Fernanda Montenegro. Ele soa um pouco abrupto, considerando o ritmo com que estávamos sendo acostumados. Entretanto, isso não diminui a carga dramática nos minutos finais. Fernanda cria uma das cenas mais intensas do cinema brasileiro e, em praticamente 15 minutos de sua presença, mostra porque é uma excepcional atriz – talvez, a nossa maior.

A Vida Invisível é uma emocionante experiência sobre o amor e a coragem de duas irmãs, diante de um machismo que tenta limitá-las. Um longa merecedor de prêmio no Festival de Cannes e de ser o representante do Brasil para o Oscar 2020. Resta-nos torcer para que essa obra chegue na premiação, recebendo ainda mais atenção pelo mundo. O cinema nacional ganhou mais um belo projeto, dentro dessa recente e boa safra.

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