O cinema se utiliza de diversos recursos para transmitir mensagens: imagens, diálogos, personagens, sons… Tudo é essencial para que o espectador possa ter a devida experiência que os envolvidos no filme gostariam de proporcionar – seja resultando em reações positivas ou não. Com essa breve introdução, digo que o resultado de Albatroz se encontra em um meio termo: ao mesmo tempo em que se mostra uma proposta psicodélica diferenciada, nos tirando de um lugar comum visto no cinema nacional, ele não consegue equilíbrio o suficiente que uma obra cinematográfica precisa ter.

A trama nos introduz a Simão (Alexandre Nero): um fotógrafo, casado com Catarina (Maria Flor), que se apaixona pela atriz Renée (Camila Morgado). Em uma viagem a Jerusalém, ele registra um atentado terrorista frustrado, e acaba que suas fotos o tornam mundialmente famoso. Porém, a mídia dispara críticas à sua atitude, fazendo Simão sucumbir à depressão. A vida dele ganha outros rumos quando é procurado pela ex-namorada Alicia (Andréa Beltrão), que o convida a realizar um inusitado experimento de sonhos – o que pode se revelar uma terrível armadilha. Não se engane com essa sinopse, porque o longa é um projeto muito mais ousado do que aparenta ser.

Sendo vendido como um suspense, na realidade Albatroz é uma viagem sensorial. Visualmente arrojado, o argumento assinado por Bráulio Mantovani (Cidade de Deus, Tropa de Elite 1 e 2), com roteiro dele ao lado de Fernando Garrido e Stephanie Degreas, nos traz um intenso jogo de luzes e cores, gerando diversas sensações. Para pessoas mais sensíveis (como eu), isso não pode ser tão agradável – entenda um caso aqui. No entanto, a montanha-russa de emoções é tão interessante e eletrizante, que embarcamos na proposta – pelo menos, até certo ponto.

Quando um personagem diz que “o mais importante não é o que está no texto, mas sim no que se vê”, esse é o pontapé expositivo para entender Albatroz. Mas então, qual o papel do roteiro nisso tudo? Do que ele realmente adianta, se não consegue entrelaçar tudo que apresenta? Acaba que a estrutura não-linear e a mistura de gêneros criam um verdadeiro quebra-cabeça mental, em que nenhum momento se completa. É como se várias peças ainda estivessem faltando, mesmo recebendo pistas visuais sobre o significado da história.

Independente das deduções e das interpretações de cada espectador, falta equilíbrio na direção de Daniel Augusto (“Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho”) para sempre poder despertar o interesse na trama. Com a linha de raciocínio se perdendo, quando a lógica dos acontecimentos começa a não fazer sentido algum – igual aos sonhos -, o público acaba se cansando, antes mesmo do terceiro ato. Esse mesmo ato fica confuso e traz uma fraca “explicação final”.

Assim, como dizer que a experiência foi totalmente satisfatória, se os simbolismos (através de frases, protozoários e ratos) perdem o sentido, beirando o incompreensível? É uma narrativa ousada, mas que precisava de mais ajustes. Principalmente porque ela acaba beneficiando e prejudicando o time de atores. Enquanto Alexandre Nero, Andréa Beltrão e Camila Morgado se saem muito bem, em personagens densos e complexos, o mesmo não pode-se dizer de Andréia Horta (Dra. Weber) e Maria Flor. As atrizes são talentosas e se esforçam, porém falta tanta profundidade e desenvolvimento em suas personagens que ambas atuações ficam, de certa forma, mecânicas. Inclusive no personagem de Marcelo Serrado, que entra e sai da trama inesperadamente.

Albatroz tem uma proposta louvável ao mexer com os sentidos, considerando o quanto nosso cinema brasileiro ainda tem muito a explorar. O visual impressionante não sustenta completamente o complexo e insatisfatório resultado, deixando um gosto levemente amargo no público. Ficamos, então, atormentados com o eterno questionamento: o que realmente foi tudo isso que assisti?

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