Nos últimos anos houve uma leva de filmes com a temática de espionagem protagonizados por mulheres em Hollywood. Temos exemplos estrelados por grandes atrizes, como Salt (Angelina Jolie) e Atômica (Charlize Theron). Quando o assunto é espiã russa, também há representantes de peso, como Operação Red Sparrow e o projeto solo da Viúva Negra (que já deveria ter sido lançado há muito tempo). Em meio a tantas produções, Anna – O Perigo Tem Nome chega com a missão de trazer alguma inovação para o sub-gênero e não ficar esquecida em meio a outras produções.

O roteiro e a direção são de Luc Besson, cineasta que já contribuiu com projetos na mesma pegada, como Lucy e Nikita. Desta vez, o foco é uma espiã russa que, depois de se envolver com a KGB e a CIA, busca sua liberdade. Até aí nada novo, pois longas de espionagem costumam explorar a rivalidade entre EUA e Rússia. Ao assisti-lo, também é possível notar outros elementos “clássicos”, como reviravoltas constantes e o uso da sedução como arma.

Um dos problemas de Anna está em seu material promocional. Mesmo que seja vendido como um filme de ação, o público não vai encontrar isso quando entrar na sala de cinema. O foco está no jogo psicológico entre os personagens, onde todo mundo está tentando enganar todo mundo, deixando momentos mais empolgantes e eletrizantes em segundo plano. Até existe uma cena em um restaurante que chama muita atenção, no nível da trilogia John Wick, mas infelizmente ele não investe nisso. Além de ser muito energética e bem dirigida, nela há também o uso de objetos de cena como arma de forma inventiva. Há muito potencial que acabou sendo desperdiçado.

Uma das características marcantes é o uso da narrativa não-linear, com muitos flashbacks para revelar informações até então desconhecidas pelo público, surpreendendo-o. É assim que são construídos praticamente todos os plot-twists, mas acabam se tornando um recurso repetitivo, cansativo e até mesmo previsível com o tempo. Por outro lado, é interessante a ideia de que o espectador precise montar a história na própria cabeça. Além de que, mesmo sendo uma trama complexa, aparentemente não deixa nenhum furo.

O elenco como um todo está muito bem, com alguns destaques para os personagens que têm mais participação. Luke Evans está convincente como Alex Tchenkov, Helen Mirren passa intimidação, autoridade e respeito como Olga e a presença de Cillian Murphy como Lenny Miller ajuda a movimentar a trama quando o filme começa a perder fôlego. Porém, quem realmente brilha é Sasha Luss. Pode parecer besteira, mas colocar uma atriz russa para interpretar uma espiã russa faz toda diferença. Ela consegue passar mais autenticidade, deixando a história mais crível. Sua escalação chama ainda mais atenção porque ela trabalha como modelo assim como a protagonista. A atuação de Luss impressiona pelas nuances que transmite em diferentes momentos da vida de Anna, parecendo que está interpretando mais de uma personagem. Além das emoções, a atriz também passa por mudanças físicas que, claro, ajudam através dos disfarces da espiã. Esse elemento é muito explorado aqui e só consegue ser tão eficiente graças ao figurino e à maquiagem. Inclusive, há uma bela referência à matrioska, a famosa boneca russa, mostrando que a protagonista também tem muitas camadas.

Tecnicamente, a produção conta com uma boa montagem, sendo eficiente na costura entre as mudanças temporais e espaciais, não deixando o espectador perdido. A fotografia também faz um bom trabalho, privilegiando locações do mundo todo – que são muitas e bem variadas.

Anna – O Perigo Tem Nome é eficiente como filme de espionagem, repetindo elementos já conhecidos de outras produções do sub-gênero. Porém, esse também é seu problema, pois veio depois delas, caindo mais facilmente no esquecimento e sendo maior alvo de comparações. Suas escolhas narrativas, porém, o torna menos palatável para o público – poderia ter usado recursos menos óbvios e repetitivos para deixar sua história mais atrativa. O saldo é um longa com qualidade, mas não o suficiente para se destacar. Pelo menos podemos dizer que a Rússia está muito bem representada.

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