Inicialmente, Assunto de Família parece simples. Se trata da história de uma família que costuma realizar furtos para complementar sua escassa renda. A execução acompanha a simplicidade da premissa, com toda a direção de Hirokazu Koreeda buscando um suposto realismo. Porém, à medida que o roteiro se desenvolve, o longa vai se revelando tão complexo quanto a própria natureza humana, desafiando o espectador a questionar certas normas sociais. Isso se dá, principalmente, através da construção de uma empatia instantânea pelos protagonistas. Como Koreeda faz isso? Através de uma abordagem intimista e crua.

Para começar a destrinchá-la, devemos ressaltar a direção de atores e os diálogos. O elenco, dotado de muita competência, consegue transmitir a sensação de que eles são pessoas de verdade, e não personagens. Não há muito espaço para exibicionismo, tudo é pautado em torno das relações entre os membros da família. Os diálogos também são pouco encorpados, como normalmente são na vida real. Não há grandes monólogos ou discussões labirínticas: são pessoas simples, com assuntos triviais do dia-a-dia, como a vida amorosa de alguém ou a qualidade de um salgado que compraram na rua. Quando um personagem busca se aprofundar nos sentimentos de outro, o assunto acaba sendo mudado, ou ignorado – mas suas atitudes e reações falam mais do que quaisquer palavras.

A fotografia, a edição e a trilha sonora buscam ter o mínimo de manipulação e/ou interferência no que estamos assistindo, realçando a sensação de que aquilo é um relato, e não uma encenação. Os movimentos de câmera são bem limitados, sendo requeridos quando um personagem corre, ou algo do tipo. No geral, os enquadramentos são imóveis, agregadores (muito plano conjunto e geral) e organizados através de uma edição bem objetiva. Tudo funcionando num nível básico, para tornar o que estamos vendo palpável.

Isso não quer dizer que o filme carece de uma iconografia marcante. Muito pelo contrário: Há uma beleza na banalidade retratada, e os enquadramentos captam o suficiente para explorar isso. Dois belos exemplos são quando a família observa fogos de artifício do quintal de sua casa e quando eles vão mergulhar no mar, numa visita à praia. A pureza desses momentos, tanto textual quanto plasticamente, constitui uma atratividade inexplicável aos quadros. Outro destaque é uma cena de perseguição envolvendo laranjas, onde, ao final, há um uso das frutas extremamente poético e impactante, sem dar margem para a falta de entendimento do público. Aliás, esta é uma das maiores virtudes do filme: sua habilidade de pontuar cada cena de maneira elegante e enxuta, sem perder sua capacidade de nos chocar. É um anti-melodrama que, em nenhum momento, soa insensível ou apático. Sua direção só busca expôr os personagens como eles são, sem nenhum maniqueísmo.

Tudo isso torna os personagens críveis e, consequentemente, o amor que sentem um pelo outro também. Inseridos nesse contexto, nossa percepção sobre os mesmos muda muito pouco com as diversas revelações da trama. Não sobra muito espaço para moralismos ou julgamentos, apenas tristeza e revolta contra um sistema que insiste em complicar o que parece tão simples. Ou, talvez, contra a própria natureza humana, que é cruel em suas contradições, deixando muitas vidas e histórias bonitas no caminho.

No fim das contas, Assunto de Família é um filme que reverencia a condição de ser, sem respostas fáceis. Um humano pode ser muitas coisas ao mesmo tempo, tornando-o imperfeito sob qualquer padrão. Nos apresentando isso com seus personagens, Koreeda nos convida a deixar o julgamento de lado e compreendê-los incondicionalmente. Em outras palavras, Assunto de Família é um exercício de empatia, que faz o ato de ser empático parecer fácil.

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