Numa lanchonete, provavelmente próxima ao luxuoso Hotel Taj Mahal, no centro de Mumbai, um turista e um garçom discutem trivialidades. Algo referente à conta do serviço, ou coisa do tipo. A conversa é abruptamente interrompida por um tiro na cabeça do funcionário, mostrado através de um close no personagem. Com o som alto e a imagem de sua testa sendo perfurada, o desespero bate imediatamente, sem tempo para lamentar a vida que foi perdida. É nesse ritmo frenético que Atentado ao Hotel Taj Mahal se pauta – o diretor Anthony Maras nos oferece a violência e, ao público, cabe apenas reagir.

Mas se engana quem acha que é só uma retratação distanciada dos atos de violência: há um discurso em evidência e um objetivo muito perceptível de se vender a história como um thriller de ação. De fato, a premissa dá margem para isso – muitas pessoas presas num local, à mercê de assassinos fortemente armados. Mesmo assim não deixa de ser uma espetacularização de uma tragédia terrível. Reduzir um massacre a um passeio de montanha-russa para o público pode ser facilmente tido como um desrespeito para com a memória das vítimas.

É importante não podar o trabalho dos artistas. Como disse Lars Von Trier uma vez, “tudo que pode ser pensado deve ser filmado” (considerando isso, que dirá algo que realmente aconteceu). Sendo assim, problematizar determinadas abordagens não é uma questão de criar restrições, apenas avaliar as narrativas que elas alimentam e como isso pode prejudicar nossa sociedade. Quando se retrata casos de tragédias reais, causadas por quaisquer tipos de extremismos, há de se considerar uma certa responsabilidade do projeto em acrescentar algo ao debate e não banalizar eventos tão complexos. A produção passa a ter uma função social mais específica.

Felizmente, o roteiro não tenta explicar o inexplicável com leviandades, mas o seu nível de reprodução mecanizada das dezenas de execuções que se deram naquele local chega a ser assustadora. Se essa fosse a proposta, sua validade dependeria mais de questões particulares do espectador – mas o filme não se propõe exclusivamente a isso.

Além de exaltar os atos de heroísmo de alguns trabalhadores ali presentes, há pinceladas leves sobre a questão estrutural que leva a ataques do tipo. Um exemplo é no começo, com os criminosos escutando uma espécie de fala motivacional, enquanto a fotografia e a música realçam um aspecto transcendental do paradisíaco pôr-do-sol local. É uma reprodução óbvia da radicalização que os levou a fazer isso – mas não para por aí. Uma voz misteriosa fala para eles (através de uma escuta) teses referentes à desigualdade que enfrentam e aponta culpados, antes de dar instruções de como devem agir. Mais tarde, a mesma os ordena sequestrar hóspedes ricos, chegando a tentar gerenciar as negociações. Em outro momento mais elucidador, um dos terroristas, ferido, se senta na cama, liga para o pai e pergunta se ele recebeu um dinheiro que lhes foi prometido.

Com essas informações, se busca reconhecer o papel do poder econômico nessas tragédias, que têm o extremismo como ponta de lança. Essa escolha do roteiro aprofunda a discussão, mas ainda só consegue arranhar a superfície. O fato de todos os personagens principais serem consideravelmente artificiais, com falas dolorosamente expositivas, é um reflexo disso. O que mais consegue se sobressair é Dev Patel, com uma entrega emocional bastante natural. O resto do elenco faz o que pode, inclusive com bons momentos que exigem bastante de seus talentos (destaque para Armie Hammer), mas o texto não ajuda muito.

Dito isso, Maras consegue, de fato, criar muita tensão. As situações exploradas (como a presença de um bebê no hotel) funcionam nesse sentido, e a montagem sabe alternar perfeitamente a duração de seus planos, além de distribuí-los de forma a tornar tudo legível. A sonoplastia áspera também intensifica a experiência, ao deixar cada tiro e explosão verdadeiramente potente. Não há dúvidas quanto à eficiência do filme, mas, sim, no quão construtiva é sua proposta para um tema tão delicado.

Em determinada cena, a localização de alguns sobreviventes é entregue aos terroristas através de uma reportagem televisiva, colocando o papel da mídia sensacionalista nessas tragédias. Apesar da crítica ser apropriada, vale se perguntar até que ponto uma produção como essa, que joga os holofotes para os assassinos e seus atos, não se assemelha a uma cobertura jornalística que busca audiência ao invés de informação. Isso porque, ao final, além de um alívio pelas vidas poupadas e uma perplexidade petrificadora, sobra a sensação de que só vimos uma adaptação cinematográfica do mesmo discurso.

Ninguém sabe exatamente qual é a maneira correta de se contar uma tragédia tão grande e recente quanto a do Atentado ao Hotel Taj Mahal. Maras queima a largada e coloca a mão na massa – seja para trazer esse questionamento ou, talvez, por ser uma proposta apelativa. Pelo menos, apesar do formato limitante, o filme não se conforta com respostas fáceis ou conclusões rasas, deixando espaço para o debate sobre a legitimidade de se mostrar o que ninguém gostaria de ver.

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