Qualquer pessoa que já tenha se aventurado na produção de um filme de baixo (mas baixo mesmo) orçamento, conduzido por iniciantes, deve ter se deparado com alguma situação de estresse. Um shot que não saiu como esperado, algum imprevisto durante o dia de filmagem… Essas cenas são comuns nos bastidores de produções feitas por equipes pouco experientes. No final, ainda que o resultado não seja o ideal, há um olhar cordial sobre certas limitações – talvez por ser uma manifestação da nossa vontade de se expressar das formas mais ousadas, ainda que sem recursos para tal. A comédia B.O., de Daniel Belmonte e Pedro Cadore, é um retrato disso – só que elevado ao extremo.

No longa, uma dupla de amigos apaixonados por cinema resolve fazer um filme, após anos sendo rejeitados por produtoras. Além de um evidente bloqueio criativo e a falta de um financiamento generoso, tudo que poderia dar errado na produção acontece, resultando em situações absurdas que nos fazem rir. A associação com o recente Artista do Desastre, que conta a história por trás do brilhantemente desastroso The Room, é inevitável – mas em nenhum momento o roteiro deixa de assumir suas inspirações nessa vertente do cinema estadunidense (numa cena, os protagonistas falam abertamente que se espelham em Todd Phillips e Seth Rogen).

O que torna B.O. diferente de obras do tipo é sua incontestável brasilidade, ao fazer um retrato preciso da nossa juventude que busca entrar no mercado cinematográfico. Da dificuldade de se vender para uma produtora às referências mais diretas à cultura local, tudo no filme soa muito autêntico de quem tentou fazer cinema por aqui. Em um momento particularmente marcante, os pais do protagonista se demonstram preocupados com o marasmo em que o menino vive – sem perspectivas para pôr seu sonho em prática – e sugerem que ele invista tempo num concurso público. Não se pode dizer que esse tipo de coisa só ocorre aqui, mas é certo que boa parte dos nossos cineastas em aspiração, que não possuem acesso a tantas portas, já devem ter passado por dilemas do tipo (não necessariamente com a família). Viver de arte não é fácil, mas é a única opção para quem é verdadeiramente apaixonado pelo que faz.

Essa honestidade na retratação das fragilidades de seus personagens, que é expressa ao longo de toda a trama, é a maior virtude da obra. A maneira como a dupla busca ser levada a sério, se forçando a fazer um melodrama e explorar diversos estereótipos, diz muito sobre a incapacidade que possuem de entender suas posições como cineastas brasileiros. O fato do filme reconhecer e tirar sarro disso demonstra uma grande perspicácia por parte dos cineastas, ainda que nem todas as piadas funcionem tão bem. Eles brincam muito com os clichês, mas alguns são menos refrescantes ou efetivos do que outros.

Não é o caso, porém, do personagem de Eduardo Speroni, que é uma hilária caricatura dos atores metódicos, com uma leve alfinetada à necessidade que alguns têm de ganhar aclamação em cima de papéis apelativos. Outro destaque do elenco é o próprio Daniel Belmonte que, no papel do protagonista, consegue transmitir bastante humanidade – sendo o menos caricato do grupo.

Quanto à direção como um todo, há uma importante atenção a detalhes fundamentais para a geração de humor, principalmente quando o resultado do projeto é exibido. Os enquadramentos escolhidos pelos protagonistas causam esse efeito, por evidenciar as suas pretensões. Dito isso, o longa se beneficiaria de uma edição um pouco mais enxuta – talvez encurtando algumas das piadas – e alguns respiros em cenas que demandam um humor mais natural, que poderiam ter se desenvolvido com mais organicidade (o estilo deadpan de Taika Waititi e Wes Anderson seria uma boa influência nesse sentido).

B.O. é um filme que não deve ser perdido pelos fãs do humor, especialmente aqueles que trabalham no meio – os que não começaram no topo certamente se sentirão representados. Em tempos de generalização para cima do cinema nacional – principalmente das comédias – é bom procurar conhecer obras que se mostram antenadas com a atualidade e com o público para o qual quer comunicar.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui