Após mais de 45 milhões de visualizações, Bird Box, da diretora Susanne Bier (The Night Manager), se tornou o filme original da Netflix mais visto na semana de estreia. Sendo assim, o seu sucesso é inegável, apesar da recepção mista por parte de público e crítica. Amando ou odiando a produção, muitos sentiram a necessidade de comentá-la, atiçando a curiosidade até dos usuários mais casuais do serviço de streaming.

O mais estranho nisso tudo é que era um filme, até então, um pouco fora do radar. Bird Box não era um competidor de peso nas premiações de final de ano ou continuação de uma franquia consolidada no mercado. É uma adaptação de um livro, mas não era nenhum Harry Potter ou Jogos Vorazes. Tem elementos das obras de Stephen King, mas não é uma delas. Então, o que fez da adaptação um sucesso instantâneo, com direito a dezenas de memes na internet?

Poderíamos atribuir isso à temática apocalíptica. Filmes que exploram um futuro distópico, quando bem feitos, tendem a cair nas graças do povo. Basta lembrar de longas e séries como Mad Max, The Walking Dead e o recente Um Lugar Silencioso. Mas, diferentemente das obras citadas, Bird Box sofre pela falta de originalidade, uma vez que muitos conceitos introduzidos são similares aos dessas e outras produções.

O design das cidades abandonadas e as situações limítrofes remetem muito ao que pode ser visto em The Walking Dead e Um Lugar Silencioso, além da ameaça minimalista e amorfa, que também lembra muito o último. Enquanto no caso do filme de John Krasinski não se podia fazer barulho, em Bird Box as pessoas não podem olhar para os seres que as atormentam.

Dito isso, todo o cenário, ainda que familiar, permite a exploração de certas ideias complexas de forma minimamente inédita. O desenho que é feito da sociedade (ou do que sobrou dela) pode proporcionar conexões com a vida real, que em tempos catastróficos como os quais nos encontramos, são muito importantes para entendermos a nossa realidade. Não é necessário ficar aqui tentando adivinhar os simbolismos de cada elemento, até porque ao fazer isso estaríamos participando de um teste de Rorschach: cada um vai ver o que lhe convém (ao contrário da ameaça do longa).

Mas certos conceitos básicos valem ser destacados. O principal é o fato de se ter uma entidade sem rosto que, ao ser vista, afeta diretamente o sistema neural de suas vítimas, levando-as ao suicídio. As que sobrevivem sentem um desejo compulsivo de forçar as outras pessoas a enxergarem também. Essa premissa básica dá margem para muitas interpretações, mas pode nos levar a refletir muito sobre as dificuldades de se viver em sociedade. A luta por sobrevivência é realizada constante e simultaneamente em comunhão e contra o desejo de indivíduos à nossa volta, e é esse paradoxo presente em nossas vidas que torna Bird Box tão identificável.

A natureza humana, em todos os seus desdobramentos, é um mistério engajante, explicando o sucesso por trás de filmes com temáticas desse tipo. Sem falar que o design, ainda que pouco original, evoca o sentimento de desesperança, expresso em pequenos detalhes. As faixas nos olhos dos personagens, por exemplo, é o tipo de construção visual icônica que vai ficar marcada na cultura pop.

Muito se pode dizer do elenco também, encabeçado pela ganhadora do Oscar Sandra Bullock. Sua presença e fisicalidade realmente contribuem muito para uma personagem já interessante, com seus diversos conflitos internos. O mais explorado é a sua falta de vontade de assumir o papel de mãe, que vai tomando conta dela ao decorrer da história, graças às catastróficas circunstâncias. O seu medo de se entregar aos seus sentimentos mais profundos a torna uma pessoa difícil de se interpretar, mas Bullock o faz com muita proeza, tanto que dificilmente questionamos suas motivações ou atitudes no decorrer da história.

Quanto ao resto do elenco, todos cumprem muito bem os seus papéis. Entre eles, há dois grandes destaques. O primeiro é o veterano John Malkovich, que sabe fazer um velho rabugento como ninguém. Sua forma de entregar as falas muitas vezes dita o tom dos diálogos e das situações, pautando o ritmo das cenas nas quais está presente. O outro é Trevante Rhodes, que após o seu revelador papel em Moonlight (2016), coloca em uso mais uma vez sua impressionante expressividade, através de gestos muito sutis. Ele consegue passar a sensação de conforto e proteção com muito pouco, às vezes um simples olhar ou toque. Ainda que não seja o personagem mais complexo da trama, sua presença é fundamental, e a atuação de Rhodes nos ajuda a perceber isso.

A direção de Bier se distancia um pouco de seu último trabalho, em The Night Manager. Aqui a câmera não é tão intimista, há uma necessidade maior de se distanciar e deixar a história se desenvolver por si só. Talvez essa seja sua maior proeza, pois entende que só o roteiro já possui bastante significado, sendo qualquer intervenção desnecessária e, possivelmente, um obstáculo para a absorção da trama. Por outro lado, isso traz uma atmosfera um pouco banal demais para o tema proposto (mal do qual Um Lugar Silencioso não sofre). Se a fotografia e os designs de som e produção se preocupassem um pouco mais com a toxicidade do ambiente do que com a funcionalidade com relação à trama, Bird Box poderia ter sido realmente memorável.

O próprio roteiro poderia ter optado por menos exposição em determinados momentos-chave (principalmente ao final). Talvez isso afastaria o público de séries, já que esse é um modelo comum para as produções televisivas, mas não dá para deixar de se perguntar o que o filme poderia ter sido com um pouco mais de ousadia.

Apesar das oportunidades perdidas, Bird Box é um filme que canaliza muito bem questões contemporâneas, e consegue operar com a manipulação necessária para prender nossa atenção. É uma experiência intensa, divertida e ultimamente incompleta, mas nem por isso se torna descartável ou inválida – tudo depende do olhar.

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