Após quase um ano e meio de espera, a nova temporada de Black Mirror chegou à Netflix com três episódios. Nesta crítica iremos falar de Striking Vipers, que apresenta novidades bem-vindas para a série, como um final mais otimista, algo que já tinha sido prometido pelos criadores.

O grande elemento aqui é o jogo de luta Striking Vipers, que tem como principal inspiração Street Fighter. Com o lançamento de uma versão mais imersiva, os jogadores são capazes de entrar no jogo – literalmente – e sentirem tudo que os lutadores sentem. O recorte feito é a partir da amizade entre Danny (Anthony Mackie) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II), que se conhecem e jogam Striking Vipers há muitos anos. Porém, a relação dos dois é abalada após jogarem essa nova versão.

Os dois atores estão à vontade no papel e a interação funciona de forma natural, como se realmente se conhecessem há muito tempo. Outra personagem importante para a história é a esposa de Danny, Theo (Nicole Beharie), que quer engravidar de novo, mas tem dificuldade pelo desinteresse do marido. Ela apresenta um bom contraponto ao problema criado a partir do jogo, e traz para a trama discussões sobre relacionamentos. Entre elas, o amadurecimento de uma relação ao longo dos anos e como ela pode se tornar cansativa com o tempo. Essa temática não fica sobrando na história e funciona como um fator importante para movimentar o episódio, se tornando decisiva para o protagonista.

Sem querer dar spoilers, Striking Vipers aborda muitos assuntos durante uma hora, e todos são bem desenvolvidos. Eles têm como base a questão dos jogos estarem mais imersivos, indo além da realidade virtual. Com isso, passaríamos a viver uma outra vida, com um novo corpo, independentemente do gênero. Além disso, ainda é questionado como seriam as relações entre os jogadores e o quanto aquilo seria real para eles.

Assim como Black Mirror costuma fazer, essa é uma discussão bastante atual, levando em conta que jogos de chat VR estão se tornando mais acessíveis e os avatares virtuais estão ganhando mais espaço. Há ainda o questionamento da sexualidade dos personagens por conta de suas escolhas no jogo.

É claro que o episódio utiliza uma tecnologia que não existe por enquanto, levando a outras possibilidades além do combate entre os lutadores. Em alguns momentos, a interação chega a lembrar o que acontece na famosa animação japonesa Sword Art Online, mas com a temática dos clássicos jogos de luta.

Os lutadores aqui representados são Roxette (Pom Klementieff), equivalente à Chun-Li, e Lance (Ludi Lin), equivalente ao Ryu, ambos de Street Fighter. Há uma sequência de ação entre os dois personagens que simula como seria uma luta do jogo em live-action. A reconstrução é muito bem feita, com coreografias e elementos visuais cartunescos e não-naturais, mas que combinam perfeitamente com a proposta. Outro destaque está no cenário, que conta com várias referências ao jogo e inclui até mesmo a cidade de São Paulo como uma das locações. Inclusive, praticamente todo o episódio foi filmado no Brasil, como o edifício Louvre, a Avenida Paulista e até mesmo a redação da Folha de São Paulo.

Diferente do que normalmente é visto, aqui temos o final mais otimista e conciliatório de todas as temporadas, atendendo ao pedido de alguns fãs. Após o lançamento de Bandersnatch, ele também nos deixa a curiosidade de como seria o final se seguisse por outro caminho, já que os personagens poderiam tomar outras decisões.

Striking Vipers é um dos melhores episódios desta temporada de Black Mirror, trazendo uma discussão muito atual sobre jogos de videogame. Ele representa um futuro que está cada vez mais iminente e sabe criar ótimos questionamentos sobre como a tecnologia pode afetar a nós mesmos e nossas relações com outras pessoas.

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