Nos anos 1980, Brinquedo Assassino se destacou entre os filmes de terror e logo ganhou o status de cult. De lá pra cá, a franquia ganhou sequências divertidas, mas que foram se perdendo com o tempo. Foi então que surgiu a ideia de um reboot, com uma atualização para os tempos modernos. O resultado consegue ser ainda melhor do que o original, reinventando a história de Chucky de forma inesperada e satisfatória.

Assim como no clássico, a trama acompanha um garoto chamado Andy (Gabriel Bateman), que ganha um boneco da sua mãe de presente de aniversário. Porém, ele descobre que há algo de estranho com o brinquedo, se envolvendo em uma série de assassinatos misteriosos. Apesar da sinopse ser bem semelhante, a versão de 2019 conta com mudanças em relação ao original que são muito bem-vindas. A maior de todas é o fato de que Chucky agora é tecnológico, se tornando uma inteligência artificial – como Siri ou Cortana – com a capacidade de se conectar a outros equipamentos de uma casa. Tudo é muito próximo do que vemos no dia a dia, incluindo carros autônomos e funções semelhantes ao Google Home. Desta forma, é possível afirmar que o filme poderia, tranquilamente, ser um episódio de Black Mirror.

Entre os pontos positivos está o roteiro de Tyler Burton Smith, que sabe tirar sarro da proposta e da própria franquia. Ele traz referências da cultura pop, além de personagens que são divertidos naturalmente, o que também é mérito dos atores. A trama é contida e trabalha com um núcleo pequeno, mas todos contam com uma função importante para a história e criam situações cômicas, tensas, ou as duas coisas ao mesmo tempo. O filme é engajante e sempre deixa o público curioso com o que vem a seguir ou como o protagonista vai resolver o problema.

Outro ponto interessante é a capacidade do longa de criar uma certa cumplicidade com o espectador. Os personagens não sabem o que vai acontecer, mas recebemos dicas a todo momento, principalmente com relação a coisas que Chucky aprende. Com isso, temos os clássicos momentos em que vemos as pessoas caminhando em direção ao perigo sem que saibam. Os problemas começam a aparecer no terceiro ato, onde há uma expectativa para uma sequência maior, mas as coisas acabam sendo resolvidas de forma anti-climática e apressada. Além disso, há um problema com facilitações do roteiro, assim como a presença de Deus Ex Machina.

Com relação ao elenco, o grande destaque fica para Mark Hamill, que consegue ter muita presença em cena apenas com sua voz. Sua interpretação passa por nuances enquanto Chucky é construído gradativamente de um boneco ingênuo até se tornar o tal brinquedo assassino, ganhando um ar sinistro. Aqui, seu arco e objetivo são mais coerentes, deixando as coisas interessantes. O visual também foi repaginado, criando uma certa estranheza que também funciona como recurso cômico.

Desta vez, Karen é interpretada por Aubrey Plaza, que passa a imagem da mãe preocupada com o filho. Mas quem realmente se destaca é a nova versão de Andy, que tem um papel mais ativo no longa em relação ao original. Suas reações convencem em todos os momentos bizarros que o garoto passa. Vale também elogiar todo o elenco mirim, que combina com a proposta e movimenta bem a trama. Além disso, a dupla Doreen (Carlease Burke) e Mike (Brian Tyree Henry) tem bastante química e é responsável por sequências divertidas.

Sobre o terror do filme, há uma construção de atmosfera que funciona, ressaltada pela trilha sonora marcante de Bear McCreary, que usa uma música infantil com uma pegada sombria. Felizmente, quase não há uso de jumpscares ou truques baratos para assustar o público. Em alguns casos as mortes são feitas de forma cômica, o que não é novidade na franquia, mas também há cenas de assassinato inquietantes e desconfortáveis.

Brinquedo Assassino atualiza a franquia de maneira digna, honrando o legado e fazendo uma renovação inventiva que deve agradar boa parte dos fãs. Mesmo atual, ele homenageia os filmes dos anos 1980, assim como o próprio clássico, com diversas referências e momentos icônicos. Uma ótima forma de apresentar Chucky para uma nova geração.

1 COMENTÁRIO

  1. […] Ainda no gênero terror, outra franquia bem sucedida na época que lançou foi Brinquedo Assassino (1988), fazendo com que boa parte das crianças – e adultos – ficassem com medo de Chucky. A série ainda rendeu mais seis continuações, que foram se perdendo com o tempo – até chegar o reboot, lançado este ano. Desta vez, o boneco Buddy tinha uma pegada mais Black Mirror, explorando a inteligência artificial ao invés de espíritos. Leia nossa crítica completa clicando aqui. […]

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