Quando criada, em 1968, Carol Danvers não era muito mais do que uma coadjuvante. Ao ganhar seus poderes e ressurgir como Miss Marvel, em 1977, começa a ter mais espaço no Universo Marvel, chegando a liderar uma equipe dos Vingadores na era pós-Guerra Civil (2007). Porém, foi só em 2012 que a editora conferiu a ela o manto de Capitã Marvel, praticamente vago desde a definitiva morte de Mar-Vell, na década de 1980. Apesar de toda essa história, a sua adaptação para o cinema parte do princípio de que tudo que torna Carol especial já existia muito antes dela ser uma super-heroína. Capitã Marvel não é simplesmente sobre a obtenção de seus poderes, mas também sobre o seu processo de emancipação de uma cultura tóxica e a canalização dos seus esforços na direção correta.

Através do desenvolvimento da personagem, o filme faz um pertinente e contundente comentário sobre as narrativas que nos são impostas pelo sistema e as injustiças provenientes das mesmas. Desde o início ela se encontra inserida numa guerra cujas motivações desconhece (fãs já devem saber que se trata do histórico conflito entre Krees e Skrulls) e, à medida que descobre o seu passado, entende melhor o seu papel naquilo tudo. Isso faz com que o roteiro evite maniqueísmos baratos e estereótipos muitas vezes induzidos pelo próprio material fonte. Evidentemente, isso afeta diretamente o arco do personagem Talos, interpretado de forma surpreendentemente humana por Ben Mendelsohn. Pelos trailers, muitos poderiam esperar mais um vilão de uma nota só, mas esse definitivamente não é o caso. Aqui, o ator pode esbanjar todo o seu talento – por baixo da realista e grossa maquiagem dos Skrulls.

Quanto à atuação de Brie Larson no papel principal, podemos dizer que é perfeita para a proposta do filme. Com todo o seu alcance emocional, a atriz consegue injetar a humanidade necessária para que Carol seja muito mais do que uma guerreira superpoderosa. Parece que estamos vendo um verdadeiro ser humano por trás do uniforme, graças ao seu trabalho preciso e pouco afetado. Suas dúvidas, indignações e imperfeições são tão palpáveis quanto sua bravura, determinação e rebeldia – que são enfaticamente expressas pelo roteiro. Ainda que essas características sejam mais colocadas através de diálogos expositivos do que de demonstrações singelas (como a icônica cena da granada no primeiro Capitão América), a performance de Larson é tão convincente que o espectador não questiona, em nenhum momento, o que é estabelecido sobre ela. Sua amiga Maria Rambeau, interpretada por Lashana Lynch, é a principal testemunha das virtudes da nossa heroína, e a bonita relação entre as duas completa, de certa forma, a própria protagonista.

Outros integrantes do elenco que se destacam são Annette Bening, num misterioso papel que acaba explorando diferentes faces da atriz, e Samuel L. Jackson, reprisando Nick Fury. Aqui, o agente da SHIELD está muito diferente do que estamos acostumados a ver. Além de sua aparência mais jovial (construída com muita eficácia pelos efeitos visuais), temos um Fury menos calejado, com uma personalidade mais descontraída e bem-humorada. Esse lado inédito do personagem casa bem com o seu – já conhecido – sarcasmo, proporcionando alguns dos momentos mais engraçados do longa. Não se preocupe se você costuma achar o humor distrativo em filmes de ação, pois as piadas não soam nem um pouco forçadas, graças à flexibilidade do roteiro e à naturalidade do ator. Sua presença beneficia a dinâmica com todos os personagens com quem contracena (principalmente o Goose), mas a química com Larson é especial, não precisando de muito contato entre os dois para a construção de uma amizade memorável – o que adiciona ainda mais camadas para o final de Guerra Infinita.

Apesar disso, não vá aos cinemas esperando um prelúdio de Vingadores ou uma preparação para Ultimato: o longa é muito mais do que isso, se sustentando por si só. Se Homem-Formiga é um filme de assalto e Homem-Aranha: De Volta ao Lar é uma história de colegial à la John Hughes, Capitã Marvel seria um mix entre sci-fi espacial, comédia buddy cop e thriller político de guerra (com pitadas conspiratórias). Tudo isso é inserido nos Estados Unidos da década de 1990 de forma muito concisa, apesar dos elementos serem bem diversificados. A construção da época também é muito crível, com uma simplicidade e autenticidade expressa pelos ambientes e figurinos. O período histórico também permite algumas passagens de humor situacional que devem ser particularmente cômicas para quem viveu na época. A parte no planeta Hala, por outro lado, não é tão inspirada assim, com muita coisa remetendo a outras ficções científicas (principalmente Blade Runner). Como a menor parte do filme se passa lá, não é algo que chega a ser incômodo.

A direção de Anna Boden e Ryan Fleck, no geral, também é bastante protocolar, não sendo um trabalho aparentemente autoral ou distante do que já vimos no MCU (Pantera Negra, Thor: Ragnarok e Homem de Ferro 3 ainda são imbatíveis neste quesito). A sua força consiste justamente na plena noção do que eles estão fazendo, reconhecendo que a força do filme está no roteiro, no elenco e nas relações que vão ser construídas através deles. Sendo assim, eles se preocupam mais em embutir a carga emocional necessária em momentos estratégicos. De mais ousado, há pequenos comentários sobre o cinema na adição de momentos altamente metalinguísticos, mas isso depende mais do olhar de cada um. Há, por exemplo, um flashback (dos vários presentes no filme) que é controlado diretamente por um dos personagens, o que o torna um experimento interessante sobre a relação entre imagem e memória.

Quanto às cenas de ação, nenhuma possui coreografias memoráveis, mas as situações exploradas por algumas são tão inusitadas que é impossível não se divertir com elas. Uma das brigas no início, porém, tem fotografia muito escura, dificultando a visão. Tirando isso, algumas conveniências de roteiro e um ritmo menos enérgico no decorrer do segundo ato, não há muito para criticar na execução. Há uma subutilização do núcleo Kree – o que pode ser problemático para alguns – mas fica evidente que esse não passa de um capítulo na vida de Carol, funcionando num nível mais superficial.

O personagem Yon-Rogg, de Jude Law, tem um pouco mais de importância por ser o líder da equipe e uma espécie de tutor para a heroína naquele mundo. Há uma breve tentativa de torná-lo mais profundo, mas ao final ainda fica incerto o que ele verdadeiramente pensa sobre a guerra e sobre a própria protagonista. Mesmo assim, é um importante contraponto para Carol, que evidencia o quanto ela cresceu ao longo de sua jornada na Terra. Law também passa muito bem a soberba e rigidez do personagem, que inesperadamente se revelam frutos de um senso de autoridade frágil. Isso tudo só engrandece a protagonista aos olhos do espectador, consolidando-a como uma figura implacável e – sim – alguém que pode tirar o sono do Thanos.

Capitã Marvel é um filme divertido, inspirador e surpreendente, que explora os conceitos de heroísmo e poder como poucas produções do gênero. É, também, um prato cheio para os fãs da Marvel, com diversas referências aos quadrinhos e outros filmes da série, que devem encher os olhos de muita gente. A homenagem a Stan Lee no início, em especial, atesta a sensibilidade do estúdio quanto ao seu legado, enquanto a primeira cena pós-créditos é de deixar qualquer um instantaneamente empolgado para a participação de Carol em Vingadores: Ultimato. Mas isso só se dá graças ao trabalho dos realizadores na construção de uma verdadeira heroína, que deve assumir um protagonismo maior no MCU nas próximas fases. É oficial: Capitã Marvel veio para ficar.

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