Os livros de Stephen King costumam render boas adaptações para o cinema. Do clássico Um Sonho de Liberdade ao recente It: A Coisa, suas histórias costumam transcender os gêneros aos quais pertencem, sem nunca deixar de explorá-los efetivamente. Como resultado, ganhamos longas que, através de convenções, comunicam muito mais do que aparentam. Uma exceção notável foi Cemitério Maldito, de 1989, que investe demais em sua vertente “pipoca” e abre mão de qualquer profundidade maior que a trama oferece (além de ser involuntariamente engraçado, por vezes).

Felizmente, o remake homônimo de 2019, que chega aos cinemas brasileiros nesta semana, não comete os mesmos erros de seu antecessor. A versão de Kevin Kölsch e Dennis Widmyer busca explorar a camada psicológica da história, funcionando principalmente como um drama alegórico sobre os efeitos do luto. O roteiro investe mais tempo em cenas silenciosas, enfocando nas relações entre os personagens e o impacto dos eventos em suas vidas. O competente elenco aproveita ao máximo essa proposta, especialmente Jason Clarke, numa atuação compenetrada e dramaticamente intensa. O seu olhar desolado, por vezes assustado, adiciona ainda mais profundidade para o texto. John Lithgow também convence como um misterioso – mas bem intencionado – vizinho, e a jovem Jeté Laurence é uma verdadeira revelação, principalmente nas cenas assustadoras.

Outros destaques são algumas especificidades técnicas fundamentais para tornar aquele universo crível, como a maquiagem funcional e o design de som pontualmente potente. Aliados a planos detalhes explícitos, eles conseguem gerar bastante incômodo na retratação dos corpos, o que nos faz pensar o quão frágil a vida é. O verdadeiro horror reside nesse fato, apesar do suspense com os zumbis (incluindo um gato divertidamente macabro) também ser notável.

Porém, nem tudo funciona tão bem. Se por um lado houve avanço no estudo dos protagonistas e dos temas levantados, por outro, o longa se contenta com um desenvolvimento breve e alguns sustos. Havia potencial para ser muito mais encorpado no que diz respeito ao drama em seu centro, mas como a trama tinha que avançar, acabamos com pouco disso. A personagem mais prejudicada é a de Amy Seimetz que, apesar da boa performance, parece um tanto deslocada. Ela tem um arco próprio, que provavelmente seria suficiente para abastecer um filme inteiro, mas acaba sendo suprimido numa trama já solidificada.

A fotografia também se beneficiaria com uma paleta de cores e uma iluminação mais diversificadas. Há a predominância de um cinza nebuloso e sem vida que evidentemente faz sentido, mas torna a atmosfera menos intoxicante do que deveria ser. Alguns longas de perspectiva similar, como Hereditário e Sem Amor, conseguem fazer isso com mais requinte e eficácia. Pelo menos o design de produção é suficientemente inspirado para criar uma composição visual minimamente marcante.

No geral, Cemitério Maldito é um terror bem executado e mais profundo do que aparenta ser, tornando-se um remake melhor do que a versão original. Porém, são justamente suas virtudes que tornam evidente o potencial que o material tinha para ser muito mais, deixando um gosto amargo na boca. Ainda assim, é recomendável para os fãs de terror e, muito provavelmente, de Stephen King.

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