Exaltar os excluídos pela sociedade não é uma novidade no cinema, mas sempre resulta em ótimos pontos de vista sobre esses personagens. São figuras que possuem tantos detalhes na personalidade que podem se tornar os protagonistas. Isso acontece muito bem em Como é Cruel Viver Assim, novo longa de Júlia Rezende.

No enredo, Vladimir (Marcelo Valle), Clivia (Fabiula Nascimento), Regina (Débora Lamm) e Primo (Silvio Guindane) são infelizes e incapazes de realizar qualquer coisa que dê sentido às suas vidas. Para mudar a situação, eles planejam sequestrar um milionário, mas não possuem nenhuma experiência para cometer o crime.

O roteiro de Fernando Ceylão cria personagens estereotipados, como o malandro medroso e a adulta desbocada, mas de uma forma completamente condizente com a realidade. Todos existem na vida real e isso já ajuda na identificação do público com o que está acontecendo em tela. O que cada um fala ou faz são grandes pontos positivos neste filme, que é adaptado de uma peça de mesmo nome.

Dessa forma, o humor ácido é o que mais fortalece a narrativa. Com um equilíbrio muito bom com o drama, já que se trata de uma comédia dramática, as piadas são inseridas nos momentos mais inoportunos. Mas o timing dos atores é tão bom que tudo funciona e isso surpreende o espectador, arrancando boas risadas e também algumas involuntárias.

O casal principal, composto por Vladimir e Clivia, protagoniza as melhores cenas. Marcelo Valle arrasa, trazendo carisma e uma profundidade para o papel que dificilmente funcionariam sem uma boa interpretação. Fabiula Nascimento, que também está em cartaz com O Nome da Morte, se mostra, mais uma vez, uma atriz extremamente versátil. A personagem dela é ingênua e simples, mas dona das melhores piadas do roteiro – especialmente a piada da empada, que é genial.

E Regina e Primo também merecem elogios. A atriz Débora Lamm, que é muito conhecida pelos programas de humor na TV Globo, aqui apresenta toda a sua ótima veia cômica, mas também uma boa dramaticidade. Silvio Guindane também é um comediante, mas se destaca bastante nas cenas mais tensas do longa. Ambos os atores foram bem escalados – inclusive Milhem Cortaz, Marcius Melhem, Paulo Miklos e Otávio Augusto, que fazem participações especiais com papéis bem pontuais.

O contraste das piadas com o drama do filme é o que demonstra o talento de Júlia Rezende. A diretora, que fez Meu Passado Me Condena, Ponte Aérea e o recente Um Namorado para Minha Mulher, apresenta aqui um dos seus melhores trabalhos. Utilizando um visual bruto e um clima mais denso, ela ressalta a difícil realidade daqueles protagonistas. Os cortes de câmera e os efeitos sonoros completam tudo, dando ao projeto identidade e se destacando das comédias nacionais que chegam aos cinemas.

Como é Cruel Viver Assim é um longa muito inteligente sobre personagens reais da nossa sociedade. Apesar de não ser totalmente fluido em sua narrativa, se perdendo um pouco no meio do roteiro, o resultado final é ótimo e surpreende com seu excelente elenco.

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