Com a proximidade das festividades de fim de ano, as produções natalinas começam a chegar nos cinemas e, claro, nos streamings. Talvez, chamar Deixe a Neve Cair de “filme de natal” seja demais, já que aqui, a data comemorativa é usada apenas como pano de fundo, e o foco está nas histórias que estão acontecendo nesse período. A questão é que a maioria dos contos apresentados poderiam acontecer em qualquer época do ano, deixando o natal como cenário ideal para marketing. Quem dera o problema fosse somente esse, pois é só o começo de uma avalanche de erros, nessa adaptação que tinha tanto potencial.

Para tal projeto, a Netflix decidiu escalar jovens estrelas em alta: temos, por exemplo, Isabela Merced (Dora e a Cidade Perdida), Jacob Batalon (Homem-Aranha: Longe de Casa), Kiernan Shipka (O Mundo Sombrio de Sabrina), Mitchell Hope (Descendentes), Shameik Moore (Homem-Aranha no Aranhaverso) e Odeya Rush (Lady Bird: A Hora de Voar). Justamente, são esses e outros nomes que dão para essa adaptação o carisma que o roteiro não consegue transmitir. O filme, baseado no livro de John Green, Lauren Myracle e Maureen Johnson, tenta mesclar a estrutura de contos que a obra possui. Entretanto, a falta de desenvolvimento prejudica o resultado como um todo.

Acaba que grande parte de Deixe a Neve Cair soa básico demais, necessitando de mais profundidade em seus personagens. Como são jovens, algumas das atitudes extremas apresentadas são aceitáveis, já que a adolescência é um período de experimentação e criação de identidade. O texto acumula uma série de clichês que tornam as situações bastante previsíveis, infelizmente não sabendo aproveitar o melhor que esses elementos poderiam oferecer. Assim, os dilemas e impasses abordados se resolvem facilmente, sendo prejudicados também pela curta duração do longa (apenas 1h30). No geral, a história de Julie (Merced) e Stuart (Moore) é a mais cativante, justamente por ser a melhor desenvolvida.

Vamos, então, por partes: no caso de “O Milagre da Torcida de Natal”, que é a história de Green protagonizada por Tobin (Hope) e Angie (Shipka), vemos a clássica relação de “friendzone”. Tobin está tentando revelar para sua amiga de infância que é apaixonado por ela, mas sua timidez e insegurança o impedem de dar esse passo. No caso, o jovem finge que sabe de determinados assuntos e esportes para impressioná-la, ocasionando em momentos cômicos. Apesar de Mitchell Hope e Kiernan Shipka apresentarem boas performances, que nos fazem acreditar no casal, o roteiro não dá espaço o suficiente para seus personagens. Então, quando Tobin põe a culpa em Angie por determinados acontecimentos, isso torna-se incômodo não só para o público, quanto também para a construção da personalidade dele.

Já em “O Santo Padroeiro dos Porcos”, escrita por Myracle, temos alguns vislumbres positivos. A Dorrie, personagem de Liv Hewson (Santa Clarita Diet), tem a sua sexualidade tratada com naturalidade – como sempre deveria ser. Apaixonada por uma líder de torcida com quem se relacionou no passado, seus questionamentos sobre investir ou não na menina são genuínos. Hewson dá personalidade para o papel com o pouco material que tem. O problema é justamente a sua amiga Addie (Rush): como o texto insiste em trazer fatos através de diálogos super expositivos, a personagem fica mal aproveitada, chegando a perder relevância em certo ponto de Deixe a Neve Cair. Sua relação espirituosa com a figura interpretada por Joan Cusack também não funciona.

Chegamos, agora, no conto mais encantador: “O Expresso Jubileu”, de Johnson. Aqui, o roteiro adaptado por Laura Solon, Victoria Strouse e Kay Cannon dá o tempo suficiente para que a ligação entre Julie e Stuart seja consistente. Junte a isso as questões vividas pela jovem: ela passou para a Universidade de Columbia, mas o estado frágil de sua mãe a impede de seguir em frente. Stuart chega, então, para consolar e dar para ela uma alegria e respiro nesse momento complicado. Isabela Merced e Shameik Moore são carismáticos e encaixam perfeitamente nos papéis, tornando a história emocionante.

Sendo assim, as narrativas funcionam de forma isolada, não possuindo um equilíbrio que justifique sua união. Comentando sobre a atuação de Batalon, ele continua engraçado como sempre, mesmo que não consiga fugir do tom que estabeleceu para o Ned dos filmes do Homem-Aranha. Em termos técnicos, a cinematografia também não apresenta grandes qualidades, cumprindo seu papel de mostrar um bom contraste entre a neve e as cores quentes do figurino do elenco.

Os divertidos momentos de Deixe a Neve Cair não são suficientes para resultar em uma experiência tão agradável. O projeto entra no catálogo da plataforma sem muitas pretensões, sustentado pelas performances de seus atores. Esse é o exemplo perfeito de algo passageiro para aqueles dias de frio, onde você só quer ficar de baixo dos cobertores e tomar um café ou chocolate quente. Se não for isso, esse longa talvez não seja a escolha ideal.

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