Em setembro de 2018, Matt Groening provou que não só sabe contar boas histórias no presente e no futuro, como também na Idade Média. Não só isso, foi a chance do criador de Os Simpsons e Futurama mostrar que manda bem trabalhando com uma narrativa episódica que faz parte de uma trama maior. Depois disso tudo, agora chegou a hora de Groening deixar claro que os personagens de (Des)encanto vieram pra ficar, com uma segunda temporada no mesmo nível da primeira, ou seja, excelente.

O primeiro episódio serviu para amarrar os acontecimentos entre os dois anos da animação. Porém, como já era de se esperar, ele se preocupa tanto com isso que deixa um pouco de lado o estilo cômico característico. Assim, alguns momentos acabam ficando sérios demais e as tentativas de piadas ficam fora de hora. Felizmente, isso só acontece no início, pois já no segundo episódio o tom descompromissado está de volta.

Desta vez, a produção expande ainda mais seu universo, nos apresentando outras ambientações da Terra dos Sonhos e trabalhando com diferentes assuntos. Entre eles, não poderiam faltar críticas ácidas e pertinentes à sociedade atual, incluindo temas polêmicos como política e religião. Funciona muito bem a dinâmica do roteiro ao explicitar problemas da era medieval que hoje não são aceitos, como o fato das mulheres não terem voz, o abuso de poder dos líderes e a precária higiene do período. Mesmo que todos esses sejam temas sérios, a animação sabe tratá-los com muito bom humor, fazendo com que o pública reflita minimamente sobre eles, por conta do estranhamento causado pelas diferentes culturas.

Além da comédia, a série ainda tenta flertar com outros gêneros em episódios específicos. Essa marca já é conhecida de Groening, quando ele faz paródia com outros programas em Os Simpsons, por exemplo. No caso de (Des)encanto, há mistério, romance, aventura e até mesmo drama. Todos funcionam de forma muito pontual, mas funcionam. Porém, fica claro que a intenção não é se levar a sério, com o humor sendo ressaltado a todo momento.

Uma das maiores qualidades aqui é a evolução dos personagens, principalmente daqueles que não foram tão bem aproveitados na primeira temporada. Tudo bem que o trio de protagonistas é o grande foco, mas agora também passamos a nos importar mais com outros, como o Rei Zog, a Rainha Oona e o Príncipe Derek, assim como Odval e os demais membros do Conselho Real se tornam mais interessantes. Bean, Elfo e Luci também não decepcionam, sempre com boas tiradas e servindo como principais fios condutores para a história. O mais legal é que esse desenvolvimento funciona de forma orgânica e lógica, se aproximando de pessoas reais, mesmo se tratando de caricaturas.

Entre os 10 episódios da segunda temporada, alguns se destacam. Por exemplo, no segundo, os protagonistas vão literalmente do céu ao inferno, onde o roteiro aproveita para fazer todo tipo de brincadeira com Deus, anjos, demônios e o próprio Luci rouba a cena. No penúltimo episódio, é a chance de Groening voltar a viver os velhos tempos de Futurama para introduzir a ciência na série. Já o último episódio termina com um gancho tão bom quanto o da primeira temporada, mostrando que ainda há muito o que explorar nesse universo e vários mistérios para serem resolvidos.

Uma das reclamações dos fãs no ano passado aconteceu porque a dublagem em português contou com muitos memes e gírias, mudando o sentido original de algumas piadas. Agora, é possível notar que o uso desse recurso foi bem reduzido, se tornando pontual, mas igualmente divertido. O fato é que a animação não precisa disso para ser engraçada. Por outro lado, é interessante a tentativa de localizar o humor, como quando Bean cita o “jeitinho brasileiro” em uma de suas falas.

A segunda temporada de (Des)encanto voltou na mesma pegada do ano anterior, continuando a história de onde parou e trazendo novos elementos muito bem-vindos. É a prova de que a nova investida de Matt Groening realmente deu certo e de que não importa a era ou o formato, sua marca sempre vai se sobrepor. Resta saber quando chega a nova temporada para descobrirmos o destino dos nossos protagonistas.

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