O desenho animado Dora, a Aventureira é bem simples: a protagonista, acompanhada de seu fiel escudeiro Botas, explora diferentes lugares, enquanto ensina para seu público termos em outras línguas e também funções de determinados objetos. Através de um tom super educativo (que inclui músicas), a animação ainda coloca curtas pausas entre os diálogos de Dora, para que a criança seja capaz de dizer o que foi pedido e sentindo-se, então, a principal ajudante da jornada dela. Considerando o contexto, levar esses detalhes para um live-action, especialmente na tela do cinema, não seria tarefa fácil, justamente pelo perigo de se tornar algo estranho.

Sabendo disso, o que o diretor James Bobin e os roteiristas Nicholas Stoller e Danielle Sanchez-Witzel decidiram fazer foi aderirem às ideias, ao mesmo tempo em que contornaram a situação, através da brincadeira e modernização. Logo, Dora e a Cidade Perdida funciona bastante. Diferente do tom problemático definido para Alice Através do Espelho (2016), seu projeto mais recente, aqui Bobin faz do cafona algo puramente cômico, proporcionando risadas genuínas e uma experiência que surpreende.

Basicamente, a trama do longa acompanha a mudança de Dora (Isabela Merced), agora adolescente, para o ensino médio na cidade grande, depois de uma vida explorando a floresta com seus pais. Nessa história, a garota tem dificuldades de se adaptar, faz amigos e também ganha uma rival: Sammy (Madeline Madden). A premissa traz similaridades interessantes com Meninas Malvadas (2004), tanto que Sammy possui traços de Regina George (a menina é a mais inteligente da classe, vendo Dora como uma inimiga que pode roubar seu posto). Entretanto, o projeto adota um tom mais adequado para o público infantil, colocando a protagonista em um lugar de inocência – já que ela não percebe a situação, suas respostas são doces e preocupantes aos nossos olhares. A história ainda encontra momentos para pontuar questões atuais, como a defesa da Amazônia.

Os roteiristas desenvolvem bem o contraste entre a vida na selva e na cidade, simultaneamente mostrando que as habilidades adquiridas por Dora, aliadas a sua coragem, são o que fazem dela única. Assim, o longa a define como uma protagonista forte e que as meninas podem se identificar, principalmente por ela se tornar a líder da jornada. Nada disso seria possível sem a total entrega de Isabela Merced, que assume a personagem com bastante carisma. Suas participações em filmes anteriores, como Transformers: O Último Cavaleiro (2017) e De Repente Uma Família (2018), já demonstravam seu talento. Aqui, através de caras e bocas perfeitamente condizentes com a personagem, a atriz faz de Dora uma jovem que todos gostariam de ter como amiga. Curiosidade que, recentemente, Isabela fez uma mudança em seu nome artístico (antes o sobrenome era Moner), em homenagem à sua avó.

Falando das piadas, a maioria delas beiram o absurdo, mas o roteiro soube como torná-las cômicas ao utilizar a quebra da quarta parede, por exemplo. O recurso, que ganhou mais fama depois de Deadpool (2016), deixa esse live-action ainda mais engraçado – o que acaba agradando tanto as crianças, quanto os adultos. Preciso destacar que Dora e a Cidade Perdida ainda encontra espaço para referenciar a animação, através de uma inteligente sequência em 2D. Nesse caso, como o filme também quer manter a essência dos desenhos, é onde reside alguns problemas de adequação para o público mais velho: as piadas de cunho físico não surtem o efeito como deveriam, causando mais vergonha alheia do que graça; e o mesmo pode se dizer de personagens adultos que, nas animações, frequentemente são infantis ou desatentos, e aqui não é diferente – resultando em algo ridículo além da conta.

Sendo uma produção da Nickelodeon Movies, poderíamos esperar uma cinematografia básica. Porém, a equipe do longa sabia que as telonas exigiam algo mais refinado. Tanto que quando a trama se muda para a floresta, torna-se uma aventura ousada e de proporções gigantescas, com cenários bem definidos. Aos mais atentos, percebe-se que alguns espaços se repetem (provavelmente por causa de custos), mas Bobin é sagaz ao filmá-los por outros ângulos. Destaque também à computação gráfica utilizada no macaco Botas e no Raposo (antagonista de Dora), pois seus visuais estão bem acima da média.

Vale pontuar que essa parte da aventura não está livre de erros. Existe sim um exagero maçante na narrativa, ao adicionar muitos obstáculos para Dora e seus amigos ultrapassarem. É como se o roteiro não tivesse mais história para contar, querendo apenas esticar a projeção. O que realmente funciona nesse ponto são os enigmas que exigem atenção do espectador, e também acabam estimulando as crianças a aprenderem conceitos abstratos. Além disso, todos os personagens são bem utilizados para esses enigmas, dando uma função para cada um deles.

Como a exibição para imprensa foi em versão dublada, não seria adequado avaliar o elenco em todo o seu desempenho. Dito isso, pode-se dizer que, em termos de fisicalidade, eles assumem perfeitamente seus estereótipos, possuindo química entre si. Além de Isabela, Jeff Wahlberg também merece elogios, acertando na inconfortabilidade do primo Diego e desenvolvendo um personagem que mostra que, para se adequar, não precisamos esquecer a nossa essência. Madeline Madden e Nicholas Coombe (Randy) também são ótimas adições, personificando as clássicas figuras da patricinha sensível e do nerd tímido (respectivamente). Já o elenco adulto, Eva Longoria e Michael Peña acertam nos papéis dos pais da Dora.

Dora e a Cidade Perdida é um divertido entretenimento, sem deixar de transmitir mensagens importantes sobre amizade, natureza e ser quem você é. Surpreendentemente positivo e com humor peculiar, o live-action consegue agradar todo o público. Ainda que apresente conveniências forçadas e escolhas incômodas, a proposta traz vários acertos, garantindo uma boa experiência. E fique até os créditos, pois uma hilária sequência musical, ao melhor estilo High School Musical, te aguarda.

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