A fórmula dos road trips consiste, muitas vezes, em dois personagens opostos, tendo de conviver juntos por alguma razão. Apesar de já parecer batido, alguns filmes ainda conseguem se aproveitar desse estilo, desenvolvendo boas histórias com cenas que enriquecem a narrativa. Assim, proporcionam uma experiência maravilhosa.

Este é o caso de Green Book – O Guia, que se baseia em fatos reais. Situada nos Estados Unidos, durante a década de 1960, a trama acompanha o motorista Tony Vallelonga (Viggo Mortensen) levando o pianista Donald Shirley (Mahershala Ali) para uma turnê, durante dois meses. Nessa jornada, em uma época de segregação racial, ambos vão descobrir que têm muito a aprender um com o outro.

Em sua trajetória, Green Book já está envolvido por críticas. Os parentes de Don, por exemplo, disseram que a amizade entre ele e Vallelonga foi apresentada de forma exagerada; o roteiro recebeu a acusação de não retratar fielmente a situação dos negros nos anos 60; e foram feitas comparações com Conduzindo Miss Daisy, já que parece uma versão inversa do filme de 1989. Todas essas acusações são válidas e não devem ser descartadas. Porém, no fundo, a principal proposta do roteiro é trazer um embate social entre seus protagonistas, em uma mensagem de aceitação e compreensão do diferente.

Na interação da dupla, cheia de ironias e diálogos engraçados, que tudo se revela. Tony é sem modos e desleixado, enquanto Don é fino e elegante. O abismo entre eles é visível, principalmente no primeiro encontro em que vemos o segundo sentado no trono, em cima de um pedestal, enquanto o outro está na cadeira em um nível abaixo. Essas representações visuais são um dos alicerces de Peter Farrelly para construir uma narrativa que diverte, mas em que seus momentos mais dramáticos coloca em pauta o racismo e diferenças de classe. Tudo isso enriquecido pela parte técnica: a trilha sonora de Kris Bowers nos leva de volta para os anos 60 – muitas vezes somente à base de instrumentos; e a ambientação é rica em detalhes, principalmente nos veículos.

Enquanto acompanhamos a viagem, entendemos que por trás de toda a postura desafiadora do músico, existe uma realidade dolorosa de uma pessoa solitária. Mahershala Ali está em uma das melhores interpretações de sua carreira. Sem deixar de lado o humor do seu personagem, o ator também traz uma emocionante força quando Donald tenta não se abalar com o preconceito que sofre. O mundo insiste em diminuí-lo, mas ele mostra superioridade. São várias as cenas que escancaram o racismo, presente na sociedade da época – e que ainda persiste -, conseguindo nos chocar com questões que já conhecemos. Não à toa, o título se refere a um guia de viagem com hotéis específicos que aceitavam afro-americanos.

Viggo Mortensen também está ótimo, tendo inclusive engordado 20 quilos para o papel. Fazendo um típico malandro, aos poucos o personagem vai nos conquistando com sua transformação e demonstrando como o ser humano é suscetível a necessárias mudanças. Rimos do lado mais controverso de Tony, com ele sendo uma pessoa que pode ser encontrada em qualquer lugar. Tendo o devido olhar, como o pianista tem por ele, podemos encontrar qualidades em quem menos acreditamos.

Green Book – O Guia tem um roteiro previsível, é claro, mas conquista em seus pequenos detalhes. A interação de Ali e Mortensen sustenta perfeitamente a narrativa, nos proporcionando risadas espontâneas, ao mesmo tempo em que expõe o racismo existente pelos cantos dos Estados Unidos. Como dito anteriormente: as polêmicas envolvidas são válidas, mas é inegável a mensagem positiva do longa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui