As animações podem parecer sempre para crianças, mas muitas são mais direcionadas para adultos. Depois do excelente trabalho em O Fantástico Sr. Raposo, o diretor Wes Anderson demonstra, mais uma vez, seu talento para animações com Ilha dos Cachorros – trazendo não só um lindo stop-motion como também uma trama política-social.

No longa, o corrupto prefeito Kobayashi decide aprovar uma nova lei na cidade de Megasaki: proibir os cachorros de morarem no local, fazendo com que todos os animais sejam enviados a uma ilha vizinha repleta de lixo. Mas o pequeno Atari, de 12 anos de idade, não aceita se separar do cachorro Spots. Assim, ele decide roubar um jato e parte em busca de seu fiel amigo, iniciando uma épica jornada.

Dividido em partes, o filme nos mostra não só todo o desenrolar da proibição dentro da cidade, mas também acompanhamos o drama dos cães na ilha e como a situação muda a relação entre eles. Ditadura, erradicação de uma raça, lei do mais forte e nazifascismo são alguns dos temas que a trama faz paralelo, mas não deixando de trazer momentos para dar risadas e ser uma animação divertida.

A aventura dos cães e de Atari é emocionante de assistir. A história japonesa – com produção americana – fala bastante da relação entre animal e dono, mostrando a necessidade e o amor entre um e outro. Chief é rebelde e um dos cães com mais desenvolvimento no longa. Apesar de utilizar-se de elementos clichês, o roteiro traz algumas surpresas e trabalha bem a relação entre Chief e Atari. E o resto do grupo – formado por Boss, Duke, King e Rex – é um ótimo alívio cômico para o filme.

Existe uma boa divisão de tela com tudo que acontece na cidade. Nessa parte é onde as questões políticas-sociais são mais evidenciadas, principalmente pelas atitudes da população em relação aos discursos do prefeito Kobayashi. Porém, o roteiro poderia ter desenvolvido melhor a personagem Tracy, para que a jornada dela fosse menos descartável dentro da trama.

Importante ressaltar o modo que a câmera é utilizada. Quase sempre em primeira pessoa, ela mostra os personagens conversando com os que estão do outro lado do cenário, mas muitas vezes isso resulta em uma quebra da quarta parede e eles parecem falar com o público. E a música é muito importante para dar o tom, com batidas de tambor intensas que dão todo o ritmo para as cenas – principalmente as de luta, que são as mais empolgantes.

O stop-motion é de um trabalho excepcional. As cores e sombras dão a ele um certo realismo, muitas vezes nos fazendo esquecer de que se trata de um trabalho manual. Uma paleta de tons cinza destaca, em detalhes, toda a sujeira e o lixo da ilha. E Wes Anderson optou por utilizar, em alguns momentos, zooms e ilustrações 2D nas cenas, trazendo movimento e enriquecendo ainda mais a sua animação.

Para que tudo isso fosse bem sucedido, um time especial de vozes foi escalado. O elenco, que inclui Bryan Cranston, Koyu Rankin, Bill Murray e Jeff Goldblum, faz um excelente trabalho de dublagem, se encaixando bem nos papéis e dando diferentes personalidades para cada personagem. Destaque também para as interpretações de Tilda Swinton, Greta Gerwig e Frances McDormand.

Chegando na última parte, o filme se estende um pouco demais em concluir a história e apresenta algumas cenas boas, mas que já estavam implícitas dentro do que se propôs. Isso não prejudica todo o resultado, pois o roteiro e o trabalho técnico já trouxeram um grande sorriso no rosto do público.

Ilha dos Cachorros é mais um belo trabalho de Wes Anderson. O diretor, que também produziu e fez o roteiro, trouxe uma animação linda e rica em detalhes. O filme diverte, emociona e traz uma ótima abordagem de questões políticas-sociais. Merece, com certeza, ser conferido nas telonas.

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