Os dois primeiros John Wick são sólidas obras de ação, com uma coregrafia impressionante pautada no Gun Fu e alguns visuais deslumbrantes. Porém, seus roteiros nunca foram tão atrativos quanto o resto. A premissa do primeiro (de 2014), envolvendo o assassinato do cachorro, é contagiante, mas não se desenvolve com tanta sobriedade quanto poderia – ainda que toda a artificialidade seja aparentemente proposital. São filmes de ação que se entendem como puros espetáculos de violência, então vestem a camisa e entregam o melhor show possível – sem se preocupar, necessariamente, com um roteiro cativante. Não é o caso de John Wick 3: Parabellum, que dá um passo a mais ao aliar o conveniente ao agradável e tornar a ação e a trama uma coisa só. Em outras palavras, o diretor Chad Stahelski e os roteiristas confiam no potencial da ação para contar a história.

Tudo começa de onde o último parou, com John correndo de um lado para o outro, embaixo da chuva, após se ver na mira de uma sociedade secreta de assassinos da qual fazia parte. Sua inquietação enquanto busca se preparar para a guerra se reflete na do público, que sabe que é uma questão de tempo até alguma ameaça aparecer. O efeito é reforçado pela edição, que intercala a sua correria com a crescente aproximação de seu ultimato. Com isso, entramos por completo no ritmo da fuga e encolhemos na poltrona.

Não é para menos: no ambiente mais inesperado, uma luta corporal brutal já se inicia (com nosso herói ainda severamente ferido). Mas essa briga não é exatamente como as dos primeiros filmes: a ambiência faz total diferença, com objetos próximos sendo utilizados como armas e características do local sendo referenciadas (lembrando que o valentão solta um “shh” debochado, já que estão numa biblioteca). Coisas do tipo acontecem pontualmente ao longo da franquia, mas aqui é praticamente o tempo todo. Sempre há um elemento novo a ser explorado, o que torna um duelo mais interessante que o outro.

Stahelski também tem o hábito de “recompensar” o público com um pouco de violência explícita, mas de forma estranhamente não-gratuita. Dá para perceber uma economia do gore, dando maior intensidade para cada golpe brutal. O espectador realmente sente a dor no que está vendo (podendo até mesmo preferir fechar os olhos em alguns momentos).

Todo esse procedimento se repete em um museu de armas, num estábulo e em outras localidades inusitadas. O importante não é só o espaço físico em que a ação se encontra, mas o que ele disponibiliza para tornar os ataques mais criativos. É como um parque de diversões, onde cada atração oferece uma emoção diferente, nos deixando completamente vidrados no que está sendo mostrado. E, não, não é por uma curiosidade mórbida – está mais para um malabarismo ou espetáculo de balé, onde os movimentos e suas consequências são tudo. De repente, não é mais só sobre a inventiva e ousada coreografia, mas o que ela comunica através da movimentação dos corpos – principalmente do protagonista.

No papel de Wick, Keanu Reeves definitivamente se reinventa. Ele não precisa mais seguir as convenções de atuação contra as quais relutou (talvez involuntariamente) por tanto tempo – como Wick, ele cria as próprias regras. Há um paralelo que pode ser feito com Neo, de Matrix, mas seu trabalho aqui é muito mais notável. Reeves se torna o show de um homem só, com uma fisicalidade remetente a Jackie Chan, Tom Cruise e até Harrison Ford. Como eles, o ator é altamente performático, se expressando simplesmente pela forma como reage à ação (facial e verbalmente também). Com a condução de Stahelski e dos roteiristas, ele cria humor nas situações mais improváveis e grotescas, mas em nenhum momento nos sentimos mal com isso, pois sabemos que a violência não é o fim, apenas um meio para reproduzir a mais bela das artes. Nesse sentido, comparações com Buster Keaton e Charles Chaplin podem ser feitas, pois fizeram o mesmo de maneira mais descontraída (e menos sanguinolenta, obviamente).

Essas diferenças são importantes porque, por mais legais que sejam os outros John Wick, a impressão passada era de que a narrativa era uma mera formalidade para se alcançar os confrontos. Aqui, essas linhas se apagam, tanto que, quando não há gente tentando se matar, bate uma sensação de estagnação, como se a trama não estivesse andando. Porém, ainda nesses momentos, é possível encontrar elementos dignos de apreciação, principalmente pela forma que não deixam de contar a história visualmente. Um exemplo perfeito disso é a categorização e resiliência das bailarinas russas, que são mostradas em meio a um importante diálogo para o desenvolvimento da trama. Isso tem a ver com um constante subtexto envolvendo regras, repressão e a fuga de um sistema implacável, que torna Wick uma espécie de lutador pela liberdade e herói trágico. O seu status como ídolo se abastece disso, além, é claro, de seu talento no que faz. Mas o próprio roteiro sabe que a lenda vale mais do que suas ações, ao, por exemplo, fazer com que dois homens deixem de executá-lo por estarem honrados em enfrentá-lo. Eles mostram que o nome John Wick é tão forte quanto (se não mais que) seus socos, chutes, facadas, tiros e Deus sabe mais o que.

Todas essas pretensões, porém, não seriam alcançadas sem o vistoso e detalhista design de produção, que aproxima o longa de games de ação, e o arrojado design de som, que é um show à parte. É o tipo de sonoplastia que mostra que Lucrecia Martel estava certa quando se referiu ao som como uma piscina. É uma verdadeira ópera de barulhos bélicos, que se apresentam com bastante textura e distinguibilidade entre si. Nem seria seguro dizer que são realistas, pois o simples som de uma vidraça se quebrando é tão estrondoso quanto um trovão – uma licença poética necessária para nos mergulhar na situação. Se o trabalho de edição de som não for reconhecido na temporada de premiações, é porque a competição deve estar extraordinariamente forte neste ano.

Também vale ressaltar o bom trabalho do elenco de apoio, especialmente Halle Berry e seus – por vezes fofos, por vezes assustadores – cachorros. O comando de sua personagem sobre os mesmos a torna tão letal quanto John armado até os dentes, e ela divertidamente se assemelha a ele na impulsividade e no amor pelos caninos (o roteiro tem a oportunidade de brincar bastante com isso). A atriz transmite esses sentimentos muito bem, além de um domínio impressionante sobre os mascotes, como se eles fossem controlados mentalmente. Outro que tem uma dinâmica excelente com Reeves é Lance Reddick, principalmente numa cena que lembra bastante um momento icônico do já clássico O Tigre e o Dragão.

Poucas palavras podem descrever John Wick 3: Parabellum como um todo. É algo que merece mais ser testemunhado do que comentado, reduzindo o cinema à sua função mais básica e, consequentemente, a um dos mais elevados níveis de arte e entretenimento. Pode ser um pouco demais para quem tem certa resistência à retratação de violência gráfica, mas não deveria ser perdido por nenhum admirador da sétima arte. Não seria exagero dizer que está entre os melhores filmes de ação hollywoodianos desta década, ao lado de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), Em Ritmo de Fuga (2017) e Missão Impossível – Efeito Fallout (2018). Se você gosta de algumas dessas obras, ou dos clássicos artistas do cinema mudo anteriormente citados, recomendo que se dirija ao cinema mais próximo na data de estreia, e deixe a adrenalina fluir.

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