Depois que a Era Marvel na Netflix chegou ao fim, a plataforma de streaming continuou investindo em outras adaptações de HQs. Entre elas, está Locke & Key, de 2008, com roteiro de Joe Hill e ilustração de Gabriel Rodriguez. A ideia de transformar o quadrinho, publicado pela IDW Publishing, em uma série live-action já é antiga – passando por Fox e Hulu -, mas foi só agora que o projeto finalmente saiu do papel. Mesmo não sendo consumidor do material original, posso dizer que a espera valeu a pena.

A história de mistério e fantasia gira em torno da família Locke. Após o patriarca ser morto, sua esposa Nina (Darby Stanchfield) e seus três filhos Tyler (Connor Jessup), Kinsey (Emilia Jones) e Bode (Jackson Robert Scott) se mudam para a KeyHouse, uma casa onde existem chaves com poderes mágicos. Porém, eles descobrem que há uma entidade maligna que também está atrás dessas mesmas chaves, portanto precisam protegê-las.

Aqui há uma grande variedade de habilidades por parte desses objetos, que são o grande chamariz de Locke & Key. Temos conceitos criativos, tornando muito divertido e empolgante ver os personagens descobrindo como usá-las, com espaço para desenvolver os perigos que seu uso indiscriminado pode causar. Por outro lado, também há ideias que não são tão felizes em sua execução, seja por limitações técnicas ou incoerências narrativas.

Um dos principais elementos da série é a KeyHouse, uma grande mansão que pode ser considerada um personagem próprio. Toda sua ambientação funciona muito bem, dando uma atmosfera de suspense e nos transportando para uma época mais antiga através do design de produção. E o mais importante: ela consegue passar todo o ar de fantasia que deveria.

Quando saímos da residência e voltamos para os tempos atuais, o seriado passa a desenvolver as tramas adolescentes, incluindo intrigas e romances. Levando em conta que Tyler e Kinsey estão nessa fase da vida, já era de se esperar que a série os usasse para atrair um público jovem. Por conta disso, há um núcleo colegial e boa parte da trama se desenrola através de eventos que acontecem na escola.

Individualmente, cada integrante do elenco principal tem espaço para ser trabalhado e ganhar um pouco de protagonismo. Tyler passa de um garoto inconsequente para alguém mais maduro, enquanto Kinsey se torna mais confiante. Bode é um dos personagens que rouba a cena, pois, para ele, estar naquele universo com chaves mágicas é como um parque de diversões, sendo, então, o que mais se diverte. A vilã Dodge (Laysla De Oliveira) representa uma ótima ameaça, mostrando-se intimidadora, impiedosa e mais inteligente do que parece. Também vale destacar Sam (Thomas Mitchell Barnet), que tem menos espaço, mas convence muito bem como um jovem problemático.

Mesmo com tantos pontos positivos, a série ainda comete deslizes e cai em clichês. Um dos mais irritantes é o fato dos personagens tomarem decisões pouco inteligentes – o que é comum em filmes de terror -, assim como o fato de que poderiam usar melhor as chaves para resolver conflitos. Elas são muito usadas para motivos banais, mas são subaproveitadas no confronto com algum vilão. Também estão presentes frases de efeito e piadas fora de hora, assim como uma constante subestimação do público, tornando-se didático demais em alguns momentos.

Felizmente, mesmo que tenha 10 episódios – o que já considero muito – a série é muito leve e maratonável. A história se desenvolve sem enrolação, apresentando coisas novas para se manter em movimento. Sem falar que sempre está acontecendo mais de uma trama ao mesmo tempo, o que faz com que não nos enjoemos com facilidade. O tom de mistério que perpassa toda a temporada também ajuda a instigar a curiosidade do público.

No geral, o saldo de Locke & Key é positivo, destacando-se entre as produções originais da plataforma. Ela consegue divertir e ainda é competente como mistério, mas não chega a ser um terror. Porém, vale lembrar que ela é voltada para um público adolescente, o que pode ser ótimo para alguns e ruim para outros. Vale a pena conferir o primeiro episódio e continuar se for do seu gosto.

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