Um compilado de vídeos caseiros dá partida ao que promete ser uma jornada pessoal. Nele, o crescimento de uma criança é exibido, até o ponto em que o aspect ratio se adéqua à tela e vemos uma Brie Larson suja de tinta, em frente ao que parece ser uma instalação artística. Ela se vira para ver a reação de seu público, composto por uns três avaliadores. Um deles, que está no centro, faz uma expressão de rejeição e a concede uma nota baixa. Kit – como é chamada sua personagem – reage, não necessariamente decepcionada, mas triste e conformada com a não-aceitação de seu trabalho.

Só essa abertura serve de prólogo para Loja de Unicórnios, a estreia da atriz na direção. Sendo assim, já sabemos que se trata de uma história sobre o intrínseco desejo do artista de se colocar no mundo, ainda que tenha de lidar com adversidades. Mas, ao invés de uma visão romantizada, Larson opta por uma abordagem bastante reducionista – o que confere um certo charme à obra. Não é a história de uma mente brilhante incompreendida, ou qualquer outro clichê do tipo: apenas uma jovem que não quer abrir mão de sua personalidade para entrar na “vida adulta”. Nesse sentido, o filme funciona muito mais como uma história de amadurecimento do que qualquer outra coisa. E, ao invés de falar especificamente da classe artística, pode servir de representação para toda uma geração que ainda não consegue se sentir à vontade num mundo construído pelos seus pais e avós.

Para montar seu argumento, o roteiro de Samantha McIntyre (que também tem uma pequena participação no longa) trabalha com diversos estereótipos. Todos os personagens são reduzidos aos extremos de suas personalidades, sejam essas excêntricas ou ordinárias – coloridas ou monocromáticas. Nesse simples jogo de contrastes, o filme consegue deixar seu ponto bem evidente, além de introduzir dinâmicas divertidas. A fotografia acompanha essa alternância de visões, sendo policromática e vívida em cenas voltadas para o imaginário da protagonista, mas sóbria e “cinzenta” quando se passa em ambientes “sérios” (como o escritório onde ela trabalha). Não que o filme chegue a ser sisudo em algum momento – há sempre um toque inusitado que torna tudo bastante ameno, principalmente nas atuações. Ainda assim, é possível perceber as diferenças entre quem já foi cooptado pelo sistema e quem ainda resiste a isso. O figurino também é importante para essa demarcação, com a personagem de Larson optando por vestimentas extravagantes e coloridas quando abraça a sua essência.

Às vezes, o uso das cores e as idiossincrasias presentes nos diálogos e nas atuações lembram outros autores mais bem estabelecidos como Wes Anderson e Taika Waititi, mas em nenhum momento ficamos com a impressão de que a diretora tenta replicar seus estilos, pois tudo que é colocado em tela – inclusive a maneira orgânica de se filmar – traz um senso de propriedade para a diretora. É particularmente interessante como ela busca exacerbar a infantilidade da protagonista, como se fosse uma criança que não está pronta para crescer. Mas isso não é visto de forma pejorativa, já que a direção de Larson é bastante pessoal e compreensiva para com sua protagonista. É quase como se as duas realmente fossem a mesma pessoa, de forma que torna surpreendente o fato dela não ter escrito o roteiro.

Outro fator que contribui para isso é a sua atuação, que faz uso de sua impressionante capacidade de trazer credibilidade para os sentimentos das personagens menos substanciais. Nas mãos de uma atriz menos competente, Kit poderia facilmente parecer superficial (e até irritante), mas Larson se aprofunda o suficiente para trazer camadas a mais para a jovem. Sua confusão é palpável, gerando até dúvidas se não se trata de um drama sobre uma pessoa com sérios transtornos mentais.

O resto do elenco não chama tanta atenção quanto, apesar de Samuel L. Jackson se destacar no papel do misterioso e palhacesco vendedor de unicórnios. O figurino ajuda, mas é a entrega de Jackson que confere ao personagem um aspecto de apresentador de programa infantil – o que funciona muito bem para a proposta. É um trabalho complexo, porque ele deve permanecer num lugar entre o real e o fantástico, tornando sua existência minimamente crível. É bastante similar ao Willy Wonka, só que menos intenso e um pouco mais caricato. Ele não aparece tanto quanto se esperaria, mas representa o elo entre Kit e o seu “eu interior”. Em outras palavras, é uma espécie de vendedor de sonhos, fundamental para a trama.

Por fim, Loja de Unicórnios entrega uma conclusão madura com relação à vida na nossa sociedade mecanizada, sem se deixar contaminar pelos óbvios pessimismos que a vida real inevitavelmente nos proporciona. Não é o que se pode chamar de “final feliz” (textualmente falando), mas tudo é transmitido com tamanha leveza e conformismo, que não podemos dizer que o longa termina em nota baixa. A abordagem de Larson permite que a gente ria da nossa própria tragédia, sempre com um sorriso no rosto e a sensação de que tudo vai dar certo no final. É uma visão que pode incomodar a muitos, mas não deixa de ser um olhar legítimo de uma grande autora em potencial.

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