Vira e mexe, aparecem projetos como Luta por Justiça nos cinemas. Com um grande elenco, um diretor proeminente na cena independente e uma temática socialmente relevante, os trailers indicavam mais um drama, baseado em fatos, que busca ser irresistível para premiações de final de ano. E, por mais que entregue exatamente o que os trailers prometem, felizmente posso dizer que Luta por Justiça é mais do que estava esperando, pelo simples fato de ser extremamente competente dentro de seu formato.

A trama conta a história real de Bryan Stevenson, advogado e ativista que oferecia defesa gratuita para condenados à pena de morte que não tinham condições de pagar. O roteiro centra no caso de Walter McMillian, que foi injustamente acusado de homicídio, mas também perpassa por outras situações, propondo uma discussão mais ampla sobre o sistema penitenciário estadunidense, a pena de morte e o racismo estrutural. Poderia ser muito para um drama judicial de pouco mais de duas horas cobrir, só que o roteiro realmente consegue entrelaçar toda a gama de acontecimentos com muita fluidez e sem grandes excessos. É comum que produções desse tipo apelem para artifícios batidos, como grandes monólogos ou cenas emocionalmente carregadas, a fim de ostentar seus atores ou tentar manipular as emoções do público, mas, aqui, há uma dosagem muito equilibrada desse tipo de recurso. Quando o tem, há um propósito aparente para a trama, ou para o tipo de discussão que quer propôr. Nada foge do plausível, apesar de se enquadrar nesse tipo de convenção.

O diretor Destin Daniel Cretton confia no potencial dramático do caso retratado, priorizando o relato sobre qualquer outra pretensão. É óbvio que há uma ou outra linha de diálogo mais expositiva ou didática do que poderia ter sido – talvez mais numa tentativa de explicitar os sentimentos de um personagem do que de explicar o óbvio -, mas nada suficientemente aparente para prejudicar o conjunto da obra. É, no geral, um filme bem objetivo, que sabe aproveitar as particularidades de cada cena sem desviar do foco: contar a história da maneira mais eficiente possível. Cada evento fala por si só, basta colocar a câmera no lugar certo e saber afinar o tom – seja através do som ou das atuações.

Por falar nisso, é um filme que sabe aproveitar a qualidade do elenco, especialmente Michael B. Jordan no papel de Stevenson. Suas reações para as injustiças que presencia comunicam parágrafos, seja no olhar indignado e constrangido após sofrer uma discriminação, ou na pura revolta diante de uma decisão arbitrária. A câmera valoriza muito esses momentos, principalmente os mais silenciosos, por serem mais crus e realistas. Sua determinação e o envolvimento emocional com o trabalho, porém, são tão exaltados quanto, tornando-o um figura tão admirável quanto relacionável. Até suas falas mais expositivas não parecem fora do contexto, é tudo muito orgânico, diretamente demandado pelo texto. É um dos grandes papéis de sua carreira, definitivamente.

Outro grande destaque é Jamie Foxx como McMillian, representando um retorno do ator a papéis mais dramáticos e fora de sua zona de conforto. Aqui, faz um homem emocionalmente abalado pelos abusos que sofreu,  e incrédulo diante do sistema, apesar de recuperar um pouco de esperança a partir da presença de Stevenson (em quem também reluta para confiar, inicialmente). Em algumas cenas, está estável e ajuda a manter o bem-estar de seus colegas, enquanto que, em outros, fica menos paciente. Não é um personagem que fica numa nota só. É recompensador ver Foxx, mais uma vez, desaparecendo num papel denso, como tínhamos visto em Ray ou Colateral, há mais de 10 anos atrás.

Tim Blake Nelson também chama bastante atenção com um personagem que constantemente surpreende pelas suas reviravoltas, e uma atuação autossuficiente pela expressividade com a qual manifesta a sua dor. É profundamente traumatizado, e essas sequelas ficam bastante aparentes através da fisicalidade retraída, contorcida e quase catatônica de Nelson. Outros nomes, como Brie Larson (colaboradora constante do Cretton), Rafe Spall e Rob Morgan, também estão perfeitamente convincentes em seus respectivos papéis, e possuem sua importância na trama, apesar de serem menos impactantes. Não chegam a ser subaproveitados, só aparecem menos ou possuem menos nuances.

Apesar do estrelado elenco, o longa está longe de se sustentar somente nisso. Como dito anteriormente, a competência de Cretton e a sensibilidade do roteiro permitem que seus assuntos sejam trabalhados com o devido grau de honestidade e complexidade. Ele aponta o racismo como um problema estrutural, preservado por autoridades confortáveis em seus preconceitos – ainda que não admitam isso. Mais de uma vez, quando Stevenson se apresenta para algum de seus adversários, mencionam o museu de O Sol é para Todos, localizado nas proximidades. É uma forma desses homens simularem uma valorização da luta pelos direitos civis da população negra, apesar de, na prática, agirem contra isso (lembra bastante o sogro de Chris, em Corra!, elogiando o ex-presidente Barack Obama). Mostra como uma hegemonia no discurso não impede que racistas em altos cargos continuem agindo veladamente, e sendo chancelados por outras autoridades covardes demais para se comprometer politicamente. A trama se passa em Alabama na década de 1980, mas poderia acontecer nos dias de hoje, em diversos outros lugares.

A partir de determinado ponto, o longa parece assumir o empirismo como forma de corrigir o sistema, só que a própria história demonstra que, diante de autoridades determinadas a perseguir certos grupos, não há possibilidade de diálogo – que também é preciso uma pressão da sociedade civil e da mídia para evocar algum grau de racionalidade de alguém no poder. É uma boa quebra de expectativa, que não só providencia uma das cenas mais revoltantes e comoventes do filme, como também não simplifica o problema de forma irresponsável.

Além do racismo, o longa trabalha o próprio conceito da pena de morte. Há uma cena de execução por cadeira elétrica que chama a atenção pela forma como destaca determinados elementos do processo – tanto objetiva quanto poeticamente. Todo o conjunto de detalhes, das amarras colocadas nas pernas à esponja posicionada sobre a cabeça, aponta um pragmatismo assustador por parte das instituições ao tirar uma vida. Alguns dos envolvidos estão evidentemente desconfortáveis ao participar daquilo, mas é indiferente diante da força do protocolo de um estado designado à barbárie. Na sequência, está exposta toda a perversão daquela engenharia, em contraste à empatia dos outros presos, que se preocupam em não deixar o companheiro passar por isso sozinho. A escolha de Cretton de, ao final, evidenciar somente os batimentos cardíacos para, de repente, interrompê-los com uma estrondosa rajada, confere um necessário peso à sua conclusão – não permitindo que essa realidade seja banalizada.

Com essa abordagem autoconsciente e compromissada, Luta por Justiça deixa de ser um simples drama judicial genérico, e se torna uma peça exemplar do subgênero. É capaz de sensibilizar e conscientizar, sem se perder em divagações. Vai direto ao ponto, e não perde o ritmo ou a consistência do que está sendo mostrado. Não reinventa a roda, mas consegue conduzi-la plenamente.

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