A realidade de países árabes é muito diferente da nossa: o medo do terrorismo e a proximidade desses grupos deixa as pessoas com um medo constante. Ao mesmo tempo, esses mesmos países são muito parecidos com o nosso: jovens se preocupando com o vestibular, adultos se aposentando e famílias convivendo com suas dificuldades banais.

É dessa forma que o diretor tunisiano Mohamed Ben Attia retrata seu país, seu povo e seus personagens no filme Meu Querido Filho. Sua forma delicada e séria de contar histórias aparece mais uma vez, seguindo um pouco o estilo de sua obra anterior, A Amante (2016). No entanto, Attia não tem tempo de falar sobre tudo o que gostaria em apenas um longa, o que deixa algumas passagens rápidas demais ou com pouco desenvolvimento.

O maior destaque de Meu Querido Filho é a atuação. A todo o momento, nos sentimos assistindo à vida de uma família comum. Todas as ações, brigas e felicidades parecem reais, algo que você veria no dia a dia, e isso é fantástico.

Também devemos dar crédito ao modo que Attia mostra o terrorismo. Todo o “glamour” do combate aos extremistas, a apologia ao combate ou violência não é mostrado. O diretor resolveu falar desse problema sem mostrar arma alguma ou sequer um terrorista de fato. Essa guerra aparece mais como uma “assombração”, sempre é mencionada, mas nunca aparece realmente.

Existem dois problemas-chave que definem a trama do filme: o terrorismo (uma dura realidade da Tunísia) e a tristeza de seus personagens, mais especificamente, do pai e do filho. No primeiro ato, acompanhamos a história de Sami (Zakaria Ben Ayyed), um jovem adulto que está prestes a entrar no vestibular, Riadh (Mohamed Dhrif), um pai zeloso que vai se aposentar, e Nazli (Mouna Mejri), uma mãe aposentada que agora cuida da casa. Durante esse tempo, aprendemos que o filho não está feliz com sua vida e seus pais fazem de tudo para ajudá-lo.

Com um jogo de câmeras surpreendente e o aproveitamento dos silêncios entre as discussões, uma marca do diretor, o filme consegue criar situações que qualquer um pode se identificar, independente de idade, gênero ou nacionalidade. Além disso é possível perceber que Sami está mais do que triste, sempre apático aos momentos bons e ruins. Ele provavelmente tem depressão.

No segundo ato é quando a trama principal realmente começa. Em uma guinada surpreendente, o jovem desaparece da casa e seus pais começam uma busca desesperada, mas tentando mostrar para os outros que tudo está bem. É nesse meio tempo que eles descobrem que Sami se juntou à um grupo extremista religioso na Síria. Ou seja, não há como ele voltar.

Com medo de perder seu único filho, Riadh decide ir atrás do garoto. É durante essa viagem que o longa nos mostra mais do mundo árabe, a diferença entre os países muçulmanos e seu povo. É também o momento que o filme começa a se apressar. Há muito o que falar, mostrar e explicar sobre essa cultura, e a obra não conseguiu conciliar tudo isso. A jornada de Riadh tem muitos cortes temporais e cenas desconexas, o que prejudica demais a narrativa.

No terceiro e último ato, vemos a conclusão das histórias do pai e do filho e somos apresentados à um final aberto e ambíguo. Isso não significa que o real término da trama está escondido. É sutil até demais, o que ajuda na filosofia do filme, mas dificulta seu entendimento.

Meu Querido Filho é um filme complexo e difícil de entender em certos pontos, mas é uma obra maravilhosa sobre os problemas que toda e qualquer família pode enfrentar. Os temas, como o terrorismo, são abordados de forma séria mas sem perder o caráter pacífico e familiar do longa.

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