Nosso cinema brasileiro tem certa queda por cinebiografias. Mesmo que muitas não tenham resultados primorosos, esse investimento no gênero proporciona obras interessantes, como o clássico 2 Filhos de Francisco. Dessa vez, a figura homenageada é o cantor Erasmo Carlos, que tem sua história contada em Minha Fama de Mau – um longa de acertos e erros.

Baseado no livro de mesmo nome e com direção de Lui Farias, o filme é um recorte da vida do famoso “Tremendão”, pegando desde a juventude no bairro da Tijuca (RJ), até o fim da década de 70, quando atingiu o auge do sucesso na famosa Jovem Guarda. Acompanhamos, então, uma linha formulaica desse gênero: a busca da carreira, ascensão, decadência e redenção. O problema não está nessa fórmula, mas sim em como o roteiro decide mostrar essa trajetória.

Uma vez que as partes mais importantes são pontuadas, abre-se mão de estabelecer bem as relações entre os personagens, presumindo que o espectador já tem plena noção de como tudo aconteceu. Enquanto Erasmo é bem construído como um malandro e sonhador, fã de rock and roll e que tem um enorme talento, o mesmo não pode se dizer da forma como ele conhece certas figuras. Tem uma certa conveniência para como Roberto Carlos, por exemplo, chega até Erasmo, já que a amizade deles é de conhecimento geral. A montagem também atrapalha, com algumas questões se perdendo na narrativa – em uma cena, Carlos Imperial (Bruno De Luca) simplesmente ignora o protagonista, para na outra seguinte aparecer oferecendo-o uma oportunidade de emprego. Se tratando de uma cinebiografia, isso tudo torna-a picotada demais, faltando fluidez e sendo muito mais uma homenagem do que realmente a história do cantor.

Existem boas ideias, como a quebra da quarta parede, o visual estilizado – inserindo quadrinhos, pop art e onomatopeias na tela -, além da utilização da figura interpretada por Bianca Comparato. Ela representa todas as mulheres que passaram pela vida do protagonista, funcionando como um recurso narrativo fantasioso e inteligente. A desmistificação do artista endeusado, no questionamento sobre o sucesso, também é enriquecedora. São propostas bem-vindas, que ajudam na experiência como um todo, mas que não escondem o problema do roteiro.

Tecnicamente temos um maravilhoso design de produção, principalmente na reconstrução de época. A ambientação dos anos 60 e 70 é bem rica com os figurinos e cenários, nos levando numa viagem no tempo – o programa Jovem Guarda está perfeito, nos mínimos detalhes. Porém, o que mais chama a atenção são os números musicais, e muito disso se deve às interpretações de Chay Suede, Gabriel Leone e Malu Rodrigues – respectivamente Erasmo, Roberto e Wanderléa. Eles emprestaram suas vozes para as performances, pois também são excelentes cantores, deixando as sequências naturais e empolgantes. Nesse ponto, a mixagem de som é aliada perfeita, como se estivéssemos inseridos em shows dos três artistas.

Chay é muito carismático e, apesar de não parecer fisicamente com Erasmo, ele incorpora todos os trejeitos e estilo, convencendo bastante no papel. Malu arrasa trazendo o lado meigo e, ao mesmo tempo, sensual de Wanderléa, sem esquecer do temperamento instável. E Gabriel merece um destaque especial: além de ficar idêntico ao Roberto, está ótimo em sua atuação – a cena em que canta “Amigo” é uma das mais emocionantes.

Minha Fama de Mau transporta o telespectador para uma época icônica, com interpretações inspiradas. Apesar dos problemas, não deixa de ser divertido e musicalmente animado. Seu caráter convencional funciona para quem conhece as personalidades e quer ter uma nostalgia de músicas icônicas brasileiras. Então, aproveite a sessão e divirta-se.

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