Com Corra! (2017), o comediante Jordan Peele mostrou ao mundo que é um diretor de mão cheia, além de exímio roteirista. Graças ao sucesso do “suspense social” (como ele mesmo designou), criou-se muita expectativa sobre seu novo lançamento: Nós. Em inglês, o título remete aos Estados Unidos (Us = United States), então, desde o seu anúncio, já poderíamos esperar mais um filme de gênero bastante alegórico que falaria sobre questões do país. Nós é precisamente isso, mas consegue se sustentar bem mais como filme de gênero do que seu antecessor.

A trama gira em torno de uma família que, ao passar as férias numa casa de praia, acaba sendo atacada por uma versão “maligna” deles mesmos (os autoproclamados “acorrentados”). Com isso, ele já parte do subgênero home invasion (“invasão de casa”, em tradução livre), cujo nome é autoexplicativo. O fato de existir todo um subgênero de filmes que parte dessa premissa, com exemplos cultuados como Os Estranhos (2008) e Quarto do Pânico (2002), já diz muito por si só, mas Nós se diferencia por criar uma problemática sobre a noção de “invasores” através das duplicatas das vítimas. A partir disso, diversas interpretações (algumas mais evidentes do que outras) são possíveis, e o quanto você vai se identificar com a mensagem vai depender diretamente da sua ótica. Não é algo tão específico quanto Corra!, por mais que possamos nos prender a uma determinada leitura. A questão central aqui é a ideia de que as ameaças nem sempre são externas ou completamente desassociadas da gente (como defende, por exemplo, Os Estranhos). Muitas vezes nós somos nossos próprios inimigos, ou nossos inimigos são como nós.

O roteiro às vezes tenta explicitar isso de maneira óbvia, com falas mais expositivas do que precisariam ser e explicações um tanto enfadonhas, mas atribuo isso à tentativa de Peele de criar uma mitologia própria. Se por um lado isso torna o filme menos sutil, por outro permite que ele tenha essa sobrevida como um típico terror. No fim das contas, Nós pode ser visto como um excelente filme de gênero, mas quem for assistir com isso em mente pode se frustrar com algumas decisões que podem soar incoerentes ou não justificadas.

De qualquer forma, todos esses detalhes perdem importância diante da tamanha energia com a qual Peele conduz a trama. Aqui, ele consolida seu estilo com uma imageria fortíssima, que é realçada pela bela fotografia de Mike Gioulakis. A alternância entre luzes fortes e sombras profundas conferem muito dinamismo às imagens, que ficam ainda mais potentes com a cadenciada edição de Nicholas Monsour e eletrizante música de Michael Abels. Peele demonstra muito controle sobre todos esses elementos, criando empolgação, humor e medo como um verdadeiro mestre. Nesse sentido, as comparações com Hitchcock e Spielberg são mais do que justas, pois, assim como eles, demonstra completo domínio sobre a linguagem cinematográfica.

Algumas sequências permanecem grudadas em nossa mente como uma melodia – algo que o diretor já havia feito, por exemplo, na sequência de hipnose de Corra!. Esses momentos têm poder não só pela composição visual e sonora, mas também por todo o investimento emocional que recebem. Quando digo isso, não me refiro ao desenvolvimento do roteiro, mas a um timing que só os maiores diretores possuem, e que os permite saber o que cada cena pede.

Muito também se deve ao talentoso elenco, liderado por uma irreconhecível Lupita Nyong’o. Aqui, a atriz mostra sua versatilidade em dois papéis que não poderiam ser mais distintos. Com um simples olhar, ela consegue criar empatia – ou medo, dependendo da personagem. Como Adelaide, ela deve passar uma constante apreensão (proveniente de um trauma de infância) que lentamente se transforma em puro instinto de sobrevivênvia, enquanto Red (sua “cópia”) possui toda uma supressão, presente em sua postura e em sua aterrorizante voz. Os personagens de Winston Duke pedem menos nuances, mas são bastante engraçados, enquanto Tim Heidecker e Elisabeth Moss roubam a cena. Os atores mirins são outros destaques, principalmente a expressiva Madison Curry, que aparece pouco, mas tem papel fundamental logo no início. Evan Alex também impressiona como Pluto, que brilha em um momento marcante (quando assistir, vai saber do que estou falando).

Porém, apesar da experiência estética ser espetacular, ao longo do filme fica uma pequena sensação de que algo está errado. Talvez seja a maneira nada surpreendente na qual os chamados “acorrentados” são retratados. Conhecemos a história deles e sabemos de suas dores, mas eles são demonizados de uma forma que torna muito difícil a criação de qualquer laço de empatia. Acabam sendo, assim, figuras unidimensionais, como qualquer monstro de filme de terror. Visualmente são distintos, com uma fisicalidade muito própria e um figurino icônico, mas não nos simpatizamos com eles. Dependendo da leitura que é feita, isso pode ser muito problemático.

Os artifícios utilizados são necessários para a proposta de Peele, no sentido de criar um senso de preservação intenso e externar o medo dos personagens de sofrer algum mal, só que esse caminho não deixa de ser o mais usual. Uma informação dada ao final consegue mudar um pouco nossa concepção sobre os “invasores”, mas as duas horas anteriores ainda não deixam de ser extremamente maniqueístas, o que não captura a complexidade de conflitos reais – seja no campo das ideias ou não.

Evidentemente, o filme não tem a obrigação de inovar ou seguir determinadas linhas filosóficas – ele é o que é. Mas, talvez por isso, Nós acabe se tornando um filme menos relevante do que Corra!, que é muito mais subversivo ao desumanizar os vilões gradualmente. Bom, nem por isso é menos divertido, simbolicamente rico ou bem-executado. Além do mais, é a prova definitiva de que Jordan Peele é um dos nomes mais promissores do cinema atual.

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui