Chocados na cadeira do cinema foi como ficaram os críticos ao assistirem esse filme: essa é a frase que melhor define este filme. Não que ele seja chocante pela violência ou algo do tipo, mas sim por sua qualidade. A produção, o desenrolar da história, a atuação… Tudo nele é surpreendente, principalmente quando você se toca que é um filme nacional.

E se alguém transformasse a ideia de Um Dia de Fúria em um filme de suspense/assassinato, seguindo o mesmo conceito da Piada Mortal, que um dia ruim pode nos enlouquecer? Esse é o nível de O Animal Cordial. A violência e o sangue tem um propósito, desafiar o limite da nossa humanidade.

Mas não se engane, pois toda essa discussão filosófica que o filme proporciona não atrapalha o suspense e terror psicótico que é, de fato, o seu objetivo. Uma daquelas histórias em que várias pessoas são mantidas reféns por um psicopata, que vai matando os personagens um de cada vez, dando prosseguimento ao longa.

Isso sem falar das discussões paralelas que se dão pela origem e classe social dos personagens. O nordestino, o pobre, o rico, o policial, tudo isso é abordado de uma maneira fantástica e nem um pouco forçada, fazendo com que O Animal Cordial se torne mais complexo a cada vez que você pensa sobre ele. Ou seja, estamos falando de uma obra de arte.

O roteiro e direção de Gabriela Amaral Almeida não só mostram seu grande talento de cineasta, como quebra o estigma de que uma produção brasileira não pode ser grande e impactante como um filme estrangeiro.

O andamento da história e a forma como todos os acontecimentos se amarram dão um ar natural para o filme, onde nada parece forçado. Há sim alguns furos, que podemos chamar de “burrices de filmes de terror”, mas nada que realmente estrague o produto final.

Além disso, muitas partes da história são “contadas” pelos jogos de câmera e enquadramentos, como uma cena em que aparecem dois personagens e uma faca em destaque, ou um zoom em uma arma na mesa, usando de diferentes linguagens para mostrar o que vai ou pode acontecer e este é o primeiro trabalho da diretora e roteirista em um longa desse tipo. Podemos dizer que seu futuro é promissor.

A atuação é também de cair o queixo. Muitos atores – como Murilo Benício (Inácio), Camila Morgado (Verônica) e Humberto Carrão (Magno) – são muito conhecidos por fazerem novelas, mas nem tanto no cinema e que maravilhosa atuação esse elenco proporcionou. A raiva, medo e desespero de certos personagens aparecem de várias formas, do escancarado ao sutil, complementando o ar de suspense e terror do filme.

O jeito de se fazer cinema, diferente de novelas, dá um tom mais realista e sério aos atores e atrizes, colocando-os em papéis muito diferentes dos que estamos acostumados a ver na televisão, o que é surpreendente. É bom ver esses artistas em trabalhos diferentes dos da televisão, onde eles podem sair da caixa das novelas e minisséries.

A trilha sonora é a peça final que compõe o gênero do filme, usando músicas que combinam com as cenas de forma macabra e fascinante. O uso de um remix de um dos clássicos de Vivaldi – muito comum em restaurantes mais chiques, diga-se de passagem – enquanto algo terrível acontece com um personagem é de embrulhar o estômago, o que é perfeito para esse filme.

O Animal Cordial é uma grande obra do suspense e “terror de psicopata”, que remonta outros filmes do gênero e discute temas sociais, sem perder o foco no que o longa propõe: violência, medo e muito sangue.

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