Após a compra da Fox pela Disney, a empresa do Mickey começou a fazer mudanças estruturais nos estúdios, escolhendo quais projetos continuariam a ser produzidos e quais seriam cancelados. O Chamado da Floresta marca não somente a mudança de nome da 20th Century Fox – que agora passa a se chamar 20th Century Studios – como também, coincidentemente ou não, parece algo que a Disney produziria. O longa se enquadra no famoso subgênero “filme de cachorro”, adaptando o livro homônimo de Jack London, onde acompanhamos a jornada do cão de caça Buck para encontrar seu lugar no mundo durante a corrida do ouro em Yukon, Alasca, no período de 1890.

Se você acha o título “The Call of the Wild” familiar, deve ser porque ele já foi adaptado diversas vezes para o cinema. Aqui, há um bom motivo para a existência desse remake, já que, desta vez, não é usado um cachorro de verdade. Pegando carona na onda de Hollywood de criar animais extremamente realistas por computação gráfica, como em Mogli – O Menino Lobo, O Rei Leão e o recente Dolittle, esta produção também faz o mesmo, com o detalhe de que nenhum bicho fala. E, sinceramente, não precisa.

O trabalho de CGI pode começar bem aparente para o público, principalmente pelo fato de Buck fazer coisas que um cachorro de verdade não faria, além disso ser captado com muitos detalhes. Porém, com o tempo, sua interação com o ambiente e suas próprias ações convincentes vão ficando cada vez mais naturais, chegando a nos fazer esquecer que ele não existe. A ideia de usar a computação gráfica a seu favor permite criar sequências mais arriscadas sem que animais de verdade corram risco. Além disso, mesmo que seja realista, Buck e os outros bichos são muito expressivos, transmitindo uma grande variedade de sentimentos sem que pareça falso.

Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a uma animação – no bom sentido. O principal motivo para isso é a direção de Chris Sanders, que até então só havia comandado desenhos animados, como Lilo & Stitch e Como Treinar o Seu Dragão – que também lidam com a interação entre humano e animal. Aqui, ele sabe o que está fazendo, trabalhando com bastante humor físico, dando personalidade para seus personagens e criando sequências onde, apesar de não haver falas, muita coisa é dita. Destaque também para a emocionante trilha de John Powell, que dita o tom da trama, e a fotografia de Janusz Kaminski, que ressalta a belíssima ambientação em planos abertos e é responsável por um visual polido – que, às vezes, até incomoda de tão perfeito, distanciando-se da realidade.

Já o roteiro de Michael Green apresenta inconsistências devido a sua indecisão. Em alguns momentos, ele parece querer contar a história de forma infantil e divertida, enquanto, em outros, é sério e trágico. No fim das contas, acaba ficando no meio termo, apesar de ainda ser capaz de emocionar. Outro ponto que incomoda é a sensação de que o longa termina várias vezes antes do final de fato. Ele quer contar tantas histórias em um só filme que é difícil entender qual seria a principal. É sobre como Buck foi tirado de uma vida mimada, sofreu na mão de pessoas ruins, mas conseguiu fugir? A trajetória de um novato cão puxador de trenó para o líder da matilha? Ou a emancipação de um cachorro domesticado quando atende ao chamado da floresta? Esse último, por exemplo, só começa mesmo no último ato.

E onde entra Harrison Ford nessa história? Mesmo que o ator esteja em todos os cartazes do longa e seja um dos principais chamarizes, fica claro que o filme é mesmo do Buck. Por outro lado, seu personagem, John Thornton, apesar de aparecer pouco, cria um forte laço de amizade com o cão de caça, desenvolvido de forma muito bonita, quase de pai e filho. Antes disso, também vale destacar o arco sobre como o cachorro conquista a confiança dos entregadores Perrault (Omar Sy) e Françoise (Cara Gee), e vice-versa. Por outro lado, a mesquinha Mercedes (Karen Gillan) e o ambicioso Hal (Dan Stevens) não possuem tempo suficiente de tela e são muito caricatos.

O Chamado da Floresta faz um ótimo trabalho em conseguir se diferenciar ao retratar uma história que já foi contada diversas vezes. Ele faz um bom uso de CGI como recurso narrativo, levando emoções ao público a partir de um protagonista muito expressivo, perseverante e divertido. É um exemplo bem sucedido de como a computação gráfica pode trabalhar a favor do cinema.

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