Quando o primeiro trailer de O Escândalo foi divulgado, em agosto do ano passado, muito se falou na transformação radical de Charlize Theron para o papel de Megyn Kelly. Com a maquiagem tornando-a praticamente irreconhecível, já era de se imaginar que o longa faria sucesso em premiações com um histórico de reconhecer artistas nesse processo – o que foi praticamente confirmado com suas indicações ao Oscar, Globo de Ouro e outras.

De fato, sua caracterização é bem impressionante. Não só a maquiagem, como sua atuação milimetricamente calculada, que vai do tom de voz à postura rígida, torna difícil distingui-la de sua personagem na vida real – e o diretor Jay Roach se aproveita disso, enquadrando-a, muitas vezes, a partir de painéis televisivos, podendo confundir essas cenas com imagens de arquivo. O mesmo acontece com Nicole Kidman no papel de Gretchen Carlson, apesar das duas serem menos semelhantes fisicamente. Mas não é ostentando os recursos que tinha para recontar a história dessas mulheres que o diretor consegue realizá-lo com sucesso. A impressão que fica é de que ficou tão fascinado com a possibilidade de retratar o evento com precisão imagética, que não parou para pensar no como: qual seria o ângulo pelo qual abordaria o tema, ou até mesmo qual seria o tema, dentro da ampla gama de material disponível no conturbado período em que Roger Ailes esteve no comando da Fox News.

Em tese, é um filme sobre a reação das trabalhadoras diante dos abusos do patrão, e o movimento que levou à sua queda – mas demora bastante até chegar nesse ponto e, quando chega, ainda apresenta algumas digressões. Começa com o estabelecimento daquele microverso conservador da redação do canal, depois passa para o assédio virtual promovido por eleitores do Trump quando Kelly enfrenta-o num debate, depois pelas dificuldades sofridas pelas mulheres para se estabelecerem naquela emissora, além de todo o machismo estrutural com o qual convivem. Só depois disso tudo, chega, especificamente, ao comportamento predatório de Ailes e, só então, começa a pincelar o movimento que levou à sua queda. Qualquer um desses assuntos já poderia render um bom longa, mas o roteiro prefere abordar todos, sem nenhuma organicidade ou organização convincente.

Por um lado, é positivo que não tenham optado por mostrar só um caso e reconhecido que a dimensão do problema é muito maior, só que transitar entre tantas abordagens diferentes abruptamente só prejudica a cristalização da obra. Um simples reflexo dessa falta de concisão é como Kelly começa falando diretamente com o público, com toda a segurança de uma narradora onisciente, para, num estalar de dedos (ou nem isso, já que dificilmente há alguma transição), estar completamente imersa na trama como as outras personagens. É quase como se o filme tivesse desistido de sua proposta no meio do caminho. Há claramente uma preferência pela encenação pseudo-documental à A Grande Aposta, com sua câmera reativa e quebras da quarta parede – o que faz sentido considerando o envolvimento de Charles Randolph, roteirista do sucesso de 2015, com o projeto. Só que não se pode dizer que, aqui, Rudolph é tão bem-sucedido quanto.

Em A Grande Aposta, há um equilíbrio maior entre os dois recursos, assim como uma utilidade didática e estética para os mesmos. Em O Escândalo, tudo soa gratuito, e até contra-producente, se formos avaliar o potencial dramático da situação experienciada pelas protagonistas. Em A Grande Aposta, é um recurso bem-vindo para diluir a densidade da questão trabalhada – aqui, pode ser lido simplesmente como uma insensibilidade, considerando o caráter íntimo das consequências do problema exposto. Essa falta de sensibilidade fica ainda mais evidente em momentos pontuais, como numa cena delicada em que a personagem de Margot Robbie é abusada por Ailes (vivido por John Lithgow). A câmera de Roach é bastante objetificadora, se preocupando mais em registrar o olhar predatório do algoz do que o sofrimento da vítima. É um expoente de uma direção que prefere estacionar num olhar imediatista e sensacionalista, que, inclusive, só torna a falta de pulso do roteiro ainda mais evidente.

Com isso, até parece que é um longa difícil de se assistir, mas, na verdade, a montagem dinamiza a grande quantidade de informações dispostas, e há um apelo na reprodução do dia a dia da redação graças à descrição das peculiaridades daquele ambiente e à radiante imageria criada pela equipe de direção de arte e figurino. Só que é tudo muito cosmético, sem a devida substância. Talvez o fato de ser tão ameno seja um indicativo de seu principal problema – um longa que trata seu tema de forma tão superficial que mal sentimos o peso do que aconteceu (apesar da graficidade da cena previamente mencionada poder ser particularmente difícil para algumas pessoas suportarem). E as tentativas de adicionar alguma ambiguidade à situação, como quando tenta indicar que há algum mérito na trajetória de Ailes na emissora, só piora a situação, pois parece querer abastecer uma versão que minimiza os seus atos diante de um suposto ganho financeiro da empresa. Ainda que isso tenha sido realmente usado como argumento por Ailes e seus defensores, era de se esperar que uma obra que visa denunciar seus malfeitos fosse mais enfática ao rechaçar essa narrativa, ao invés de tratar a questão como uma simples queda de braço entre dois lados de validades comparáveis – e haveria inúmeras maneiras criativas de fazer isso, se não estivesse tão confortável em sua convencionalidade. É um longa que carece de um olhar mais crítico ou um genuíno interesse em seu assunto, e muito assumidamente tenta seguir um manual de como falar das podridões do mundo corporativo de forma acessível e chamativa – e, se não tivesse se enrolado nisso num nível básico, talvez teria passado despercebido e seria uma boa adição a esse catálogo.

Apesar das limitações, ainda é muito gratificante ver Theron, Kidman, Robbie e Lithgow mergulhando completamente em seus papéis. Enquanto Theron é, como já mencionado, um espelho perfeito de Kelly, Kidman fascina pela maneira como constrói detalhadamente toda uma forma de se colocar, com maneirismos em sua fala e expressividade que permanecem até em momentos de maior exaltação. Já Robbie deve demonstrar todo o ânimo típico de uma jovem ansiosa com um emprego que almejava, que aos poucos vai sendo roubado pelo ambiente de trabalho tóxico e, principalmente, Ailes (interpretado de forma perfeitamente repugnante e paranoica por Lithgow). A expressão de confusão e decepção da personagem durante a experiência traumática é de partir o coração (isso quando Roach prefere se focar nesse elemento, claro).

Outros nomes famosos do elenco, como Kate McKinnonConnie BrittonAllison Janney e Malcolm McDowell, pouco se destacam devido ao breve tempo de tela. A personagem de McKinnon, pelo menos, indica um conflito que pode ser minimamente instigante num primeiro momento. Já o personagem de Rob Delaney (o inesquecível Peter de Deadpool 2) mais atrapalha do que ajuda, fazendo intervenções completamente irritantes, apesar de ser apresentado como uma espécie de aliado para Kelly. É um homem que, apesar de andar com ela, não deixa de lado sua misoginia – o que até poderia ser factível, mas certamente não é engraçado (e parece tentar ser).

O Escândalo, então, é o que acontece quando uma produção tem um tema rico e socialmente relevante em mãos, e recursos consideráveis para traduzi-lo à telona, mas não consegue integrar tais elementos a uma proposta artística bem articulada ou definida. Apesar de perfeitamente legível, é um longa que se sustenta muito mais em fragmentos isolados – e essa história merecia bem mais do que isso.

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