A Netflix está cada vez mais investindo em produções brasileiras para sua plataforma. Depois de sucessos como 3%, o serviço de streaming agora procura por histórias que só podem ser contadas no Brasil, aproveitando nossa cultura e ambientação únicas. Uma série que explora tudo isso é O Escolhido, que estreou no fim de junho e se propõe a fazer uma discussão válida para os tempos atuais.

Na trama, um trio de médicos vai até um vilarejo remoto do Pantanal chamado Aguazul para vacinar a população contra o Zika vírus. Assim que fazem o primeiro contato, eles não são bem vindos no local e descobrem a existência de uma seita onde as pessoas nunca ficam doentes e seguem uma pessoa conhecida como “O Escolhido”.

A premissa da série é intrigante o suficiente para criar interesse do público. O mesmo vale para a discussão que ela se propõe a debater, incluindo o embate entre ciência e religião, além do fanatismo religioso. Porém, mesmo cheia de boas intenções, a execução se mostra problemática.

Os primeiros episódios de O Escolhido servem para armar toda a trama e se mostram promissores ao apresentar a chegada dos médicos em Aguazul. O problema é que com o tempo a trama vai perdendo o espectador ao criar muitas dúvidas e não respondê-las. Além disso, nenhuma das discussões que ela se propõe é aprofundada o suficiente, mas sim pinceladas de forma superficial.

Cada um dos três protagonistas possui uma motivação própria, sendo bem diferentes entre eles. Isso é apresentado ao público através de flashbacks, mostrando mais de seus problemas pessoais. Porém, durante a trama central esses elementos não ganham o peso que deveriam ter. O que sabemos sobre os personagens acaba se tornando mais uma curiosidade do que uma construção de personalidade. Já entre os habitantes de Aguazul, cada um conta com uma função e se mostra operante. Assim como vemos em produções do gênero terror ou suspense, aqui os personagens também tomam atitudes questionáveis, como ir a algum lugar perigoso, mesmo que seja avisado do risco. Enquanto isso, outros escondem algum tipo de segredo que possivelmente seria explicado em uma futura temporada, mas a princípio não tem justificativa.

Além dessas questões, um dos problemas que mais incomoda na série é o texto dito pelos personagens. Ela é repleta de frases de efeito vazias e conta com diálogos nem um pouco críveis. Isso tira o espectador da história e perde o tom de mistério pretendido, pois a todo momento sabemos que se trata de atores atuando e não médicos. Isso também prejudica qualquer vínculo que tenta ser criado entre os personagens, não havendo química alguma. O que mais agrava é o fato de que muita coisa é dita e não mostrada, quando deveria ser o contrário.

Apesar dos problemas, a criação de Aguazul é um dos pontos positivos. A ambientação é feita através dos sons da floresta, enquanto a fotografia privilegia a beleza natural do local. Ainda vale destacar toda a criação mítica da seita que vemos em O Escolhido. Ela conta com diversos detalhes que fazem parecer que ela realmente exista, seja pelas histórias contadas ou pelo que vemos através de rituais e festividades. Tudo isso tem uma característica muito brasileira, pegando elementos do folclore, por exemplo.

Ainda sem segunda temporada confirmada, a série termina de forma muito corrida, resolvendo os conflitos de maneira brusca e criando um gancho através de um diálogo totalmente expositivo. O que deveria ser empolgante para o novo ano acaba se tornando decepcionante. A série peca em sua execução, sendo prejudicada pelo roteiro, que não consegue construir seus personagens no decorrer dos episódios. Temos a sensação de que tudo seria explicado no futuro, tornando esta temporada insatisfatória.

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