Das grandes parcerias entre atores e diretores, poucas são mais notáveis e frutíferas do que a entre Robert De Niro e Martin Scorsese. É possível dizer que, em início de carreira, não havia um sem o outro. O cineasta providenciou excelentes plataformas para o ator, na mesma medida que De Niro as dominou e ressignificou com sua inconfundível e indisputável presença. Hoje em dia, é difícil de imaginar qualquer outro ator no papel de Jake LaMotta, Travis Bickle, Johnny Boy e tantos outros. E é através dessas mesmas parcerias que conseguimos observar a maturação dos dois artistas: de um Scorsese mais pé no chão e sensitivo de Caminhos Perigosos a um mestre de seu ofício em Bons Companheiros; um De Niro mais descolado e imaturo de Caminhos Perigosos aos OGs Jimmy Conway e Sam Rothstein, de Bons Companheiros e Cassino, respectivamente. Após um hiato de mais de 30 anos, a dupla se juntou mais uma vez para adicionar um importante capítulo à parceria, ao lado de outros colaboradores de longa data do diretor: Joe Pesci e Harvey Keitel. Este é O Irlandês, que conta também com uma parceria inédita com Al Pacino, no papel de ninguém menos que Jimmy Hoffa.

A trama acompanha a trajetória de Frank Sheeran (De Niro) no mundo da máfia, onde se envolve com diferentes figuras importantes para os bastidores da história estadunidense, movida por interesses de diferentes grupos empresariais e associados. Quando começa a atuar nesse campo, o protagonista já é um homem de aproximadamente 50 anos de idade, o que facilita o trabalho de rejuvenescimento de De Niro, ainda que seja bastante perceptível no início. Ao invés de fraqueza, porém, é interessante – e até estimulante – a forma como Scorsese se apropria e ostenta essa tecnologia em meio à sua história, permitindo um grande aumento no alcance do ator. Mais do que um filme de máfia qualquer, o longa é uma representação autêntica e autoconsciente de uma vida em comunhão com outros, com todas as suas virtudes e dificuldades (que, ao final, acabam pesando mais). É sobre a fidelidade a uma comunidade e um estilo de vida, o que, em nível de subtexto, é uma ótima justificativa para a reunião entre os veteranos também.

Voltando ao personagem de De Niro, a tecnologia não só é útil à trama, como permite que acompanhemos seu envelhecimento naquele meio, com todas as marcas do tempo presentes, não só em sua atuação pesarosa e introspectiva, como também em seu rosto e sua fisicalidade. Joe Pesci, apesar de aparecer menos, também passa por transformação semelhante, e é até mais impressionante, objetivamente falando. Sua persona aqui é tão surpreendente quanto, pois se distingue bastante das de outros filmes que fez com o diretor. Ele é mais calculista e se impõe através de sua posição de poder elevada, ao invés da fúria ou lábia de outros personagens. É muito recompensador ver o ator de volta num papel distante de sua zona de conforto, mas com o mesmo grau de domínio.

Porém, do trio principal, o que mais chama atenção é, de fato, Al Pacino. Ele precisa transmitir todo o carisma e a personalidade forte de Hoffa, e, sendo o ator fenomenal que é, naturalmente o faz. É o personagem mais escandaloso e independente do grupo, mas também tem uma aderência que nos faz entender o respeito que atrai de Sheeran e, em certa medida, até de seus oponentes. O resto do elenco conta com nomes muito fortes também, apesar de aparecerem pouco. Entre eles, temos Jesse Plemmons, Ray Romano e Bobby Cannavale, todos bastante operantes.

Porém, apesar da direção de Scorsese fazer bom proveito desses talentosos atores (principalmente De Niro), ela não simplesmente se sustenta nos mesmos. Ao invés disso, são muito bem integrados à sua crônica sobre o tempo e a vida, as conquistas e derrotas que vão se somando numa trajetória pautada por violências em diferentes níveis. Sheeran toma atitudes que o assombram até o fim, assim como o afastam de pessoas que amou – e tudo isso descamba para um dos terceiros atos mais dolorosos do ano. A personagem de Anna Paquin é importante nesse sentido, pois simboliza toda a rejeição proveniente de sua atividade. É uma expressão gélida de julgamento, que fala por si só (apesar do desenvolvimento dela, desde a infância, ajudar bastante a atribuir esse sentido).

De resto, temos mais um show de elegância por parte de Scorsese, com sua câmera fetichista explorando a riqueza de detalhes da direção de arte – que, por sua vez, traz muita autenticidade aos eventos. Colocando assim, pode parecer que a produção se propõe a celebrar, inconsequentemente, o dia-a-dia da máfia – o que seria incompatível com o tom pesaroso de seu desfecho -, mas a abordagem de Scorsese é suficientemente distanciada para não gerar tal efeito. Ele nos mergulha no universo do protagonista com toda a calma e apelo necessários para nos convencer da adequação de Sheeran ao mesmo, algo que consegue desenvolver graças ao estendido tempo de duração. Talvez a experiência teria sido ainda mais intensa com umas horas a mais, mas é compreensível que não o faça, dada a limitação mercadológica embutida no projeto (que obviamente tem pretensão de figurar em premiações importantes). Pode ser que como uma minissérie, de pouco mais de seis episódios, teria sido ainda mais efetivo. Ainda assim, não deixa de ser uma obra completa, mesmo que demasiadamente resumida.

Entre outros destaques das categorias técnicas, vale ressaltar também a música de Robbie Robertson, que estabelece todo o tom de uma era, sem prejudicar a imersão por, eventualmente, se passar tranquilamente por uma melodia diegética, que poderia estar tocando num aparelho de rádio. A fotografia granulada de Rodrigo Prieto também encanta, com todos os malabarismos e delineamentos deslumbrantes. Seu trabalho é fundamental para a forte iconografia da obra, apesar de ainda carregar um aspecto similar ao de outras produções da Netflix, o que tira um pouco de sua particularidade. Talvez um telão de cinema realmente seja uma melhor pedida para contemplar a imageria composta.

Por fim, pode-se dizer que O Irlandês é um profundo retrato e – por que não? – um sincero desabafo de alguns dos grandes artistas do século XX, especialmente do diretor. Acima de tudo, um exemplo de como usar a tecnologia para agregar à mensagem, ao invés de simples exploração descompromissada (que também não deixaria de ser uma mensagem, só que diferente). O cineasta novaiorquino, mais uma vez, faz escola, mostrando como sempre é possível revisitar velhos temas de diferentes formas, experimentando novas ferramentas e revelando um lado um pouco mais íntimo e melancólico de sua subjetividade.

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