Na primeira cena vemos uma família do subúrbio americano, como qualquer uma, sentada na mesa e tomando seu café da manhã. Pai, mãe e três filhos. Tudo aparentemente normal, apenas por um porém: o pai está ensinando seus filhos como se portar perante um policial. Apenas por serem negros. Assim, se Pantera Negra trouxe toda uma abordagem política e social, através das figuras fantasiosas de um herói e vilão, O Ódio Que Você Semeia eleva isso ao extremo, pelo viés da dura realidade que cerca o nosso mundo.

A adaptação do livro escrito por Angie Thomas conta a história de Estrella (Amandla Stenberg), uma jovem que passa por vários medos e descobertas da adolescência, em uma escola cara com colegas brancos e ricos. Depois de um trágico acontecimento, a menina precisará descobrir a sua voz e decidir o que fazer, para que o contexto de sua vida e seu bairro possa finalmente mudar.

Estamos vivendo, felizmente, em uma época onde temas como racismo, lugar de fala e intolerância estão sendo abordados a todo momento e em todo lugar. E O Ódio Que Você Semeia traz tudo isso em seu roteiro, mostrando-se extremamente necessário nos dias de hoje – principalmente para os jovens, que são o público que o longa mais se direciona. Dessa forma, aproveitando a forte onda sobre representação que o cinema vem abordando, essa adaptação chega como um verdadeiro soco no estômago. Tudo deixa as emoções dos espectadores à flor da pele e proporciona um sentimento de reflexão – mesmo que suas discussões já tenham sido mostradas dezenas de vezes em outras produções.

O filme leva o espectador ao limite, apresentando situações que podem parecer absurdas mas são completamente reais. Mesmo se passando em um local dos EUA, a trama facilmente se aplica à realidade brasileira, revelando que a mensagem perpetua-se por todo canto. Em termos de diálogos, por eles serem carregados de discursos fortes e profundos, em alguns momentos podem soar irreais e como se fossem apenas para chocar – principalmente quando vêm do personagem Maverick (Russell Hornsby), que é bastante politizado. A narração em off por vezes se mostra desnecessária, já que muito do que é dito está sendo mostrado em tela ou se compreende pelas reações dos personagens. Porém, a intensidade que o elenco entrega torna a abordagem mais natural.

Com as referências, que passam por Beyoncé, Um Maluco no Pedaço e o Movimento dos Panteras Negras, o diretor George Tillman, Jr. constrói o universo da história. São nesses pequenos detalhes que o longa acerta ainda mais, como nas sequências em que o preconceito está enraizado por todos os lados e de formas diferentes. A fotografia destaca bem o contraste existente entre a escola Williamson (tons azulados, tornando tudo mais frio e apático) e o bairro de Garden Heights (tons mais vivos, fortes e naturais). Pontos positivos também para a variação da trilha sonora, do rap ao pop.

A maior força de O Ódio Que Você Semeia está na incrível atuação de Amandla Stenberg (a Rue de Jogos Vorazes). A atriz consegue trazer toda a carga dramática que a personagem necessita, arrancando sorrisos e lágrimas, além de revelar mais do seu talento – percebido também em Tudo e Todas as Coisas. Na cena do interrogatório, por exemplo, Stenberg demonstra um misto de medo e indignação no olhar que impressionam. O desconforto que a personagem está passando reflete na sensação de quem assiste.

Pode-se dizer que todo o elenco está excepcional, em um ótimo trabalho de direção. Destaques para Regina Hall, Anthony Mackie, Algee Smith e o já talentoso ator mirim TJ Wright. Além disso, Chris e Hailey – personagens de KJ Apa e Sabrina Carpenter – são essenciais para o desenvolvimento da narrativa, em que ambos os atores estão bem em seus papéis.

O Ódio Que Você Semeia traz um grito surpreendente sobre questões que insistem em existir no nosso mundo. Um filme sensacional e emocionante, que merece ser assistido e lembrado por todos.

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