Nos primeiros minutos de projeção, um trio de jovens alegres se aproxima de uma isolada reserva de água, durante uma noite azulada, ao som de pouco mais do que o barulho de grilos. Os planos gerais indicam distanciamento, enquanto, paralelamente a isso, uma ameaça misteriosa se aproxima – trata-se de uma dupla esguichando algum líquido na área. Seria essa a introdução de um filme de terror? Não exatamente, mas não deixa de ser assustador. Em O Preço da Verdade, o aclamado diretor Todd Haynes conta a história real de como uma tradicional empresa estadunidense de químicos, a DuPont, contaminou toda uma região com uma substância tóxica. Rapidamente, o clima de horror se dilui, com uma resolução banal, e abre espaço para a cidade grande, com o escritório de advocacia onde Rob (Mark Ruffalo), o protagonista, trabalha – só que não é a última vez que Haynes flerta com esses elementos do horror.

O Preço da Verdade segue a tradicional proposta de “homem ordinário contra o sistema”, vista em clássicos como O Informante (1999) e JFK (1991). Assim como Mann e Stone, Haynes deixa sua marca num projeto que, nas mãos de qualquer outro, poderia ficar submisso ao didatismo do roteiro. Sendo uma história real, de alta relevância social, é compreensível que os roteiristas optem por uma abordagem mais convencional e acessível para todos os gostos, mas ainda há uma quantidade excessiva de explicações, monólogos inspirados e cenas dramaticamente apelativas (como de surtos nervosos), que, apesar da entrega dos atores, não soam suficientemente orgânicas. Parecem encaixadas para dizer ao público como deve se sentir, ou virar clipe para cerimônias de premiação – não são catárticos ou merecidos, só convenientes. Quando percebemos o artifício enquanto artifício, dificilmente esse foi costurado com o grau de precisão necessário para surtir efeito. Há momentos mais sutis em que o longa é bem-sucedido nisso, como quando, por exemplo, o personagem de Bill Pullman oferece água aos advogados da DuPont, ou numa lição de moral surpresa do personagem de Tim Robbins, durante uma reunião. Porém, em alguns outros momentos centrais, a intenção fica óbvia e acaba prejudicando a imersão.

Felizmente, Haynes consegue preencher os espaços entre esses fragmentos com toda a imageria carregada que se esperaria de um projeto seu. Aliado a colaboradores assíduos, como o diretor de fotografia Edward Lachman e o editor Affonso Gonçalves, consegue encontrar a forma perfeita de expressar as diferentes sensações da situação retratada. A atmosfera predominantemente gélida, tanto da cidade grande quanto da pequena Parkersburg, comunica o isolamento e a devastação daquelas realidades (tanto literal quanto figurativamente). A paleta de cores esverdeada transmite a toxicidade de um ambiente dominado por corporações, sem muito espaço para questionamentos morais ou respiro, enquanto o branco da neve do interior, assim como seus espaços vazios, ressalta o rastro de destruição deixado por esse sistema, como se cinzas estivessem caindo do céu (ou veneno, dada a ressignificação da água como algo nocivo). Uma sensação de abandono, desesperadamente contestada pelo fazendeiro Wilbur Tennant (vivido aqui por Bill Camp). Em contraste, temos as festividades da indústria, mais amareladas, transmitindo o luxo no qual os algozes vivem.

Como se isso tudo já não fosse desconcertante por si só, Haynes reincorpora elementos do terror na maneira de retratar as consequências imediatas da contaminação por PFOA (a substância tóxica em questão). Começa com pequenos detalhes, como os dentes apodrecidos no sorriso de uma criança e os órgãos inchados de vacas, e chega a animais vivos surtando, com olhos mortos e uma movimentação descontrolada e intimidadora. É como se estivessem possuídos por algo sobrenatural. Além disso, tem o conteúdo das fitas disponibilizadas por Wilbur, com imagens fortes de cadáveres de gados, numa textura rústica que só a fita cassete torna possível. Dá a sensação de que o protagonista está assistindo a uma espécie de snuff film. O uso de imagens de arquivo, aliás, é bastante preciso, inclusive para acompanhar algumas elucidações.

Aos poucos, no entanto, o longa vai se adequando ao seu formato, perpassando pelo thriller conspiratório (personagens compulsivamente preocupados por ameaças não aparentes) até se confortar num drama de tribunal mais mastigado. Porém, não perde o fôlego e nem a riqueza de detalhes dos enquadramentos de Lachman, só fica cada vez menos distinguível de outras obras do gênero graças às necessidades do roteiro. Em compensação, a construção do caso, paralelamente à evolução do personagem de Ruffalo, torna-o cada vez mais instigante. É uma obra que consegue estimular uma sede de justiça, na mesma medida que o faz com o protagonista. Ficamos admirados por sua perseverança, que é muito bem explorada na última cena, com um uso explosivo da música e da edição. Edição essa que, por sua vez, é pontuada pela repetição, com cortes secos ao fim de cada segmento e cartelas transitórias – que, dependendo do contexto, ganham sentidos diferentes e podem gerar bastante impacto no espectador. No caso desse final, todo o arco dramático do protagonista valoriza ainda mais a cena, pois reforça suas virtudes.

Mark Ruffalo está excelente no papel de um homem inicialmente descompromissado, que, aos poucos, vai se envolvendo cada vez mais com aquela situação. É um personagem muito reativo, permitindo que o ator transpareça todos os seus sentimentos em trocas muito francas e, por vezes, acaloradas. O crescente peso de sua rotina também é perfeitamente passado pela sua fisicalidade cada vez mais retraída, cansada. Cresce, porém, nos momentos em que deve expressar sua revolta, como numa cena de interrogatório onde demonstra uma agressividade latente, apesar de se controlar por conta do decoro.

Anne Hathaway, que interpreta sua esposa, Sarah, também está ótima, mas não possui o mesmo espaço para brilhar. Algumas das cenas mais expositivas caem no colo dela, e as desempenha competentemente, apesar das limitações que oferecem, como mencionado acima. Há toda uma subtrama sobre as dificuldades que ela passa na ausência do companheiro, assim como sua fidelidade e admiração pelo mesmo, só que fica mais contida nesses monólogos inspirados (com exceção de um ou outro momento de intimidade do casal). Do resto do elenco, Tim Robbins e Bill Pullman apresentam trabalhos consistentes, com um ou outro momento de destaque, enquanto Bill Camp começa irreconhecível, mas, à medida que nos acostumamos com sua presença, fica cada vez mais perceptível que é ele sob a maquiagem.

O Preço da Verdade é, então, uma peça típica de drama corporativo, com algo especial a mais pela criatividade e sensibilidade de Haynes. Talvez fale mais do que mostre, mas não mostra pouco – e o que mostra é tão impregnante quanto qualquer imagem que tenha produzido na última década. Não se engane: diferentemente do que em Carol ou Sem Fôlego, Haynes, aqui, é um homem com uma missão. Está mais operante, pois este não é só um filme do autor, é uma obra que visa representar toda uma comunidade e informar o resto do mundo sobre riscos à saúde aos quais está exposto – o que as participações especiais de sobreviventes do caso, reveladas no final, indicam. No que diz respeito a isso, é igualmente bem-sucedido, sendo, então, uma produção importante, que deve ser assistida (principalmente no momento atual em que o Brasil, especialmente o Rio de Janeiro, vive).

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