O cinema de gênero vem ganhando cada vez mais espaço no mercado nacional, proporcionando produções com linguagens diferentes e ousadas pouco vistas em nossas telonas. O ano de 2018 está sendo marcado por esse seguimento e ganha mais um ótimo representante: O Segredo de Davi.

No filme, que participou do Festival de Cinema de Montreal, acompanhamos a história de Davi (Nicolas Prattes): um tímido estudante que esconde um passado sombrio. Ao visitar sua vizinha Maria (Neusa Maria Faro), um instinto esquecido vem à tona e Davi comete o seu primeiro assassinato. Assim, ele começa a seguir numa jornada de crimes que revelarão sua verdadeira natureza: a de um serial killer.

Em seu primeiro longa, Diego Freitas demonstra muito talento na direção e no roteiro. Misturando realidade e fantasia em sua história, ele conduz uma narrativa interessante que mexe com a percepção do espectador. Para tal resultado, Freitas explora bastante a mente de Davi, utilizando desse realismo fantástico para nos mostrar o que se passa na cabeça do personagem. A narração em off também é um recurso bem utilizado, revelando ainda mais os pensamentos dele. Toda essa combinação poderia ser desastrosa, mas em tela o resultado é admirável.

As cenas dos assassinatos são bem filmadas, ficando cada vez mais brutais. Quando Davi chega no ápice da crueldade, o filme ganha uma intensidade sensacional, reforçada pelos bons cortes e transições da edição. É um thriller que mergulha profundamente em sua história e foge do lugar comum, precisando ser absorvido aos poucos.

Quem assiste deve estar atento à tudo, pois a narrativa não é linear. Ao revelar o passado do protagonista, várias pistas são dadas. Nesse ponto O Segredo de Davi traz algumas falhas, já que falta equilíbrio na apresentação dos flashbacks com o que está acontecendo no presente. Como a maioria das revelações são feitas no terceiro ato, em alguns momentos tudo fica monótono e sem grandes desenvolvimentos.

Por todas essas razões, a força do filme está na excelente performance de Nicolas Prattes. O ator, conhecido por papéis na TV, traz uma interpretação inspirada e destacada por um assustador olhar que criou para o personagem. Quanto mais Davi mata, Prattes vai crescendo em sua atuação, se mostrando uma escolha perfeita pro papel e arrepiando em várias cenas. André Hendges, que interpreta Jonatas, também está muito bem na pele de um personagem sempre misterioso, principalmente pelo teor sexual que envolve a relação entre ele e Davi. O resto do elenco é muito bom, onde a maior parte funciona como condutores da história – elogios para João Côrtes como Caio e Bianca Müller como Dóris.

O longa também se destaca visualmente, com uma cinematografia sombria que torna São Paulo uma cidade melancólica e palco perfeito para a trama. A belíssima fotografia, priorizando as cores primárias, traz um visual noir para a produção em que as cenas noturnas exploram perfeitamente o contraste entre luz e sombra. Para criar o clima de tensão e ansiedade, a mixagem de som vai crescendo aos poucos à medida que as situações vão ganhando contornos mais sinistros. Destaque também para a música-tema “O Ir e Vir das Coisas”, de Gustavo Rosseb, que é bem-vinda nos créditos finais.

O Segredo de Davi é uma total imersão na mente de um serial killer. Uma obra estilosa e de alta qualidade, enriquecendo o nosso cinema através de uma narrativa fascinante. O longa merece ser prestigiado e, com certeza, Diego Freitas é um grande nome a ser acompanhado.

O longa já está em cartaz nos cinemas. Não deixe de conferir nossa matéria especial sobre a pré-estreia, onde entrevistamos o diretor Diego Freitas, o protagonista Nicolas Prattes e os atores André Hendges e João Côrtesclique aqui.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui