Assim que os indicados ao Oscar 2019 foram anunciados, uma das principais surpresas foi a presença de Melissa McCarthy na categoria de Melhor Atriz. Conhecida por ótimas comédias como A Espiã Que Sabia de Menos e Missão Madrinha de Casamento, em Poderia Me Perdoar? ela mostra sua versatilidade para a atuação e carrega o filme pelo seu carisma também em dramas. Mas será que as indicações deste longa foram justas?

Baseada em uma história real, a trama acompanha a escritora falida Lee Israel, que encontra um jeito de ganhar dinheiro falsificando cartas de pessoas famosas, como Dorothy Parker e Larry King, e as vendendo para livrarias. Com isso, ela passa a lucrar com o mercado de colecionadores de itens raros, mas também se torna uma criminosa.

Mesmo que o filme seja uma “dramédia”, com toques de humor muito bem-vindos e sutis, Poderia Me Perdoar? é um filme muito melancólico, que mostra como a vida é dura e difícil. Isso pode ser notado desde a cena inicial, onde Lee perde seu emprego e acompanhamos seu cotidiano onde está cheia de dívidas, tem uma gata doente e não consegue vender seus livros. Tudo isso é ressaltado pela trilha sonora melancólica e marcante de Nate Heller, que combina perfeitamente com a proposta. Essa apresentação inicial justifica sua entrada para a vida do crime, pois a personagem estava em uma situação sem saída e sem perspectiva de melhora.

Outro ponto explorado no filme, principalmente na primeira metade, é o mercado de escritores na época de 1991. Podemos perceber a dificuldade que existe para os autores desconhecidos se firmarem nessa área, principalmente as mulheres. Uma das referências como exemplo de sucesso é o escritor Tom Clancy, classificado como machista pela personagem de Melissa McCarthy.

E por falar na atriz, esse é um dos melhores papéis de sua carreira – senão o melhor – onde ela some completamente e temos apenas a personagem. Lee Israel conta com muitas camadas, sendo uma mulher arrogante e grosseira, mas ao mesmo tempo carrega frustrações e dificuldades que a tornam cativante. Além disso, a atuação de Melissa traz detalhes sutis, como a insegurança e a culpa no momento em que vende as cartas, ao mesmo tempo em que se sente bem ao fazer isso.

Quem também ganha bastante destaque é Jack Hock (Richard E. Grant – indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante), que acaba se envolvendo com as falsificações de Lee graças a sua experiência com fraudes. A dinâmica entre os dois é muito bonita e rende os momentos mais divertidos do filme. Ele se torna uma das poucas pessoas que consegue fazê-la feliz em meio ao caos que está sua vida, se tornando um importante apoio emocional. A atuação de Grant é caricata, o que combina com a personalidade de Jack e convence. Porém, mesmo que o personagem também tenha seu próprio arco, ele funciona muito mais como um suporte para a protagonista.

Ainda vale destacar a personagem Anna (Dolly Wells) que traz para o filme uma honestidade e ingenuidade para a vida de Lee, dando um frescor e contraste muito bem-vindos. Além disso, as duas contam com ótimos diálogos reflexivos sobre a vida.

Um dos maiores acertos do longa está no roteiro, também indicado ao Oscar. Se tratando de uma história real, o filme consegue transmitir a veracidade dos fatos por ser muito bem escrito. Mérito de Nicole Holofcener e Jeff Whitty, que trazem humanidade para seus personagens e discutem sobre a moralidade de cada um. Com isso, o público também pode se questionar se faria o mesmo no lugar da protagonista.

A cereja no bolo de Poderia Me Perdoar? são os créditos, onde conhecemos mais detalhes sobre as fraudes de Lee Israel, mais tarde descritos por ela no livro de mesmo nome. Esse fato torna o filme ainda mais interessante, se tornando uma ótima adaptação de uma surpreendente história real.

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