Quando se pensa em filmes sobre o último ano do colegial, Hollywood é mestre em trazer os estudantes aproveitando ao máximo tudo que podem e/ou cometendo as maiores irresponsabilidades e loucuras inimagináveis. Fato é que esses projetos quase sempre são com o intuito de divertir, com algumas raras exceções – Lady Bird e Quase 18, por exemplo. Em Primeiro Ano, o diretor francês Thomas Lilti decide seguir o caminho inverso: mostrar as dificuldades e desafios dos alunos na vivência do primeiro ano da faculdade. Essa decisão não só traz um frescor para a temática, como também resulta em abordagens diferentes do que frequentemente vemos no cinema.

O que se percebe no trabalho de Lilti é um olhar mais atento ao sistema educacional e a necessidade de apresentar tudo com a maior veracidade possível. Por essa razão, algumas cenas são tão realistas que parecem documentário, tornando o longa algo além da ficção. Mais interessante ainda é saber que o diretor, para realizar o projeto, decidiu reingressar a universidade para prestar novamente o exame. Assim, aos poucos nota-se o objetivo de discutir se esse processo é válido ou não, através das atitudes dos personagens. O ponto de vista de Lilti é bem claro, contudo ele nos deixa elaborar nossas próprias conclusões. E mesmo o gênero sendo um drama, ganhamos deliciosos momentos de comédia, em contraste com uma situação tão profunda e mecânica.

Seus protagonistas Antoine (Vincent Lacoste) e Benjamin (William Lebghil) não estão preocupados com festas, bebidas e garotas, mas sim, com classificações, estudos e carreira. E apesar dos personagens seguirem o mesmo caminho (cursar medicina) durante o trama, inicialmente vemos pessoas completamente opostas: Antoine é focado e dedicado, sendo repetente. Já Benjamin acaba de chegar para o exame, sendo mais despreocupado e indeciso com relação ao futuro. No encontro deles vemos a construção de um laço de amizade essencial para criarmos empatia pela dupla, além de fazê-los alcançar boas posições na lista de aprovados. Ambos são personagens intensos e quando a inevitável competição os atinge, sentimos o impacto do desenvolvimento da trama. O roteiro ainda acerta em trazer uma inversão de papéis e não julgá-los, somente indicando as estratégias que cada um segue para passar.

Nada disso seria possível sem a boa escolha dos atores. A sintonia entre Lacoste e Lebghil é perfeita, nos fazendo acreditar que se tratam de dois estudantes. Lacoste tem uma atuação mais internalizada, o que combina com Antoine e não diminui o seu talento interpretativo. Mas o verdadeiro destaque fica para Lebghil, que com sua veia naturalmente cômica nos faz rir quase toda a vez que Benjamin aparece, por meio de expressões que vão do humor à seriedade. A paixão dele por comida, principalmente por um certo pão de chocolate, resulta em momentos hilários. Ambos os protagonistas estudam dia após dia juntos, passando a mensagem de que não é preciso passar pela situação sozinho – a construção da relação familiar também é importante nesse aspecto.

O sistema quer dificultar a aprovação deles cada vez mais, impedindo os jovens de alcançar o grande objetivo de vida. Lilti apresenta os problemas, no entanto não idealiza essa imagem de que o exame é um monstro a ser vencido, pois em uma linha de diálogo ele também mostra que, por outro lado, os próprios alunos possuem preconceitos com relação à carreira e sucesso. Como podemos criticar o processo se as pessoas diminuem o valor do professor, o profissional que ensina tudo de necessário para conseguir uma classificação? É uma pergunta que fica no ar para reflexão do espectador.

Com esse novo projeto, Lilti compõe, de forma não intencional, uma espécie de trilogia junto dos seus filmes anteriores Hipócrates (2014) e Insubstituível (2016) – já que os três falam sobre medicina. Primeiro Ano parece ser o mais autoral, visto que ele reviveu profundamente o ambiente para desenvolver seu roteiro. Ele traz alguns clichês e referências a Rocky (1976) que mostram suas influências americanas, mas o toque pessoal é visível. Seu olhar delicado, e ao mesmo tempo perspicaz sobre o período escolar, cria um resultado maravilhoso de se assistir.

Primeiro Ano é um autêntico retrato da maturidade e crescimento emocional. Tão divertido quanto reflexivo, ele é um daqueles longas que nos deixa com um grande sorriso no rosto. A naturalidade com que a obra é abordada cria momentos sinceros e muito comoventes. Alcançar a graduação é difícil, e precisamos encontrar a melhor maneira de passar por esse momento. E não precisa ser sozinho, porque com alguém ao lado a tarefa fica bem mais fácil.

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