A temática de zumbis já foi amplamente explorada de quase todas as formas possíveis. Todos os anos são lançadas diversas produções com as mais diferentes abordagens, sempre tentando encontrar uma forma de se destacar dos demais. Entre elas, está a nova aposta da Netflix: a produção brasileira Reality Z. A obra tem como premissa ambientar um apocalipse zumbi no Rio de Janeiro, onde os participantes de um reality show estão entre os poucos sobreviventes. A ideia não é novidade, já que é adaptada de Dead Set, de Charlie Brooker (Black Mirror), e já foi abordada em Supermax, de José Alvarenga Jr. Mesmo assim, o seriado criado por Claudio Torres conta com méritos próprios e não deve nada ao que é produzido em Hollywood.

Um dos pontos mais interessantes da série é a forma como ela explora o elemento reality show. Com uma pegada de Big Brother Brasil com temática grega, o Olimpo precisa ser encerrado de forma abrupta devido ao apocalipse, mas continua presente até o último episódio. Temos as relações entre os participantes, as provas típicas de eliminação e, principalmente, o cenário, que se tornou o principal abrigo em meio ao caos. A experiência social de colocar pessoas desconhecidas para conviver em um ambiente são elevadas a um novo nível quando há um perigo fatal externo. As situações e consequências que giram em torno disso são convertidas em puro entretenimento para o espectador.

Também vale destacar os personagens que conhecemos nesses 10 episódios da primeira temporada. São muitos rostos que, a princípio, parecem descartáveis ou subaproveitados, mas, na verdade, refletem a coragem da série em não se preocupar em ter um protagonista ou matar alguém muito querido. Todos eles carregam arquétipos comuns do gênero, porém se destacam pelas atuações e o fator “brasilidade”. O Rio de Janeiro não é apenas um pano de fundo, sendo aproveitado também para explorar características culturais e problemas comuns na região, como a corrupção e o preconceito, justificando a história se passar na cidade. Destaque para o egocêntrico Brandão (Guilherme Weber), o carismático TK (João Pedro Zappa), o maníaco Robson (Pierre Baitelli) e a determinada Teresa (Luellem de Castro).

Os zumbis da série são muito convincentes graças ao excelente trabalho de atuação e caracterização, com grande uso de efeitos práticos. A série conta com uma violência bem gráfica, momentos tensos e ótimas sequências de ação, que ficam ainda mais ricas pelo trabalho de direção e edição de som (com exceção do mau uso da câmera lenta). Também vale elogiar a montagem dinâmica e os efeitos visuais – esse último mostrando a cidade se deteriorando com o passar do tempo.

Já entre os pontos negativos, está a enrolação na primeira metade, com tramas que demoram muito para avançar. Também temos os clássicos personagens que tomam atitudes incompreensíveis e os clichês presentes em praticamente todas as obras do gênero. É possível notar inspiração em produções americanas, que em alguns momentos funciona, mas em outros acaba ficando apenas brega, como nas recorrentes frases de efeito.

Reality Z é uma surpresa bem-vinda ao catálogo da Netflix. É um projeto de ótima qualidade que sabe se diferenciar de outras produções de zumbis. O fato de ser uma obra nacional dá um gosto especial para nós, brasileiros, por conta da representatividade, um de seus principais méritos. A fórmula abre margem para muitas temporadas e ainda mais possibilidades.

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