Depois de ter nos levado ao espaço em 2013 com Gravidade (filme pelo qual ganhou o primeiro Oscar), em Roma o diretor mexicano Alfonso Cuarón volta o olhar para a Terra. Mais especificamente para o bairro Colonia Roma, localizado na Cidade do México. Com os pés firmes no chão, ele conta a história de Cléo, uma empregada doméstica que trabalha para uma família de classe média alta da região.

Muitos eventos diferentes impactam a trajetória da protagonista, mas nunca se tornam o assunto. Dos conflitos políticos da época aos problemas familiares na casa onde trabalha, tudo é tangente a ela. Só vemos o suficiente para montar o quebra-cabeças e saber como o sistema, com todas as suas peças, dificultam a vida de trabalhadoras como a Cléo. Porém, Cuarón busca transcender aspectos sociais, políticos e econômicos através da contemplação da vida. A fotografia cintilante e os longos planos-sequência, aliados a uma edição contida e um desenho de som austero, ajudam a alcançar esse efeito. Em compensação, o roteiro busca um distanciamento do que é retratado. Há uma relação impessoal, até nos momentos mais dramáticos. Mas Cuarón não o faz com indiferença, mas, sim, de forma a respeitar a integridade dessas cenas.

Nesse sentido, Roma se aproxima muito dos diretores do Neorrealismo italiano – movimento cinematográfico da década de 1940 que surge para registrar o momento de crise pelo qual a Itália passava. Seus filmes buscavam a realidade das ruas, sem contar com muitos artifícios. Os atores nem sempre eram profissionais e características identitárias, como o sotaque, eram mantidas. Não se gastava muito tempo com convenções melodramáticas, então as tragédias e injustiças eram retratadas de forma crua. Mas havia espaço para atitudes nobres e ações de heroísmo inesperadas. Assim, as obras do Neorrealismo italiano se tornavam relatos, retratando a realidade de maneira fiel. Todas essas lições se encontram em Roma, quase como se Cuarón tivesse seguido uma cartilha. Mas não confunda isso com falta de propriedade sobre a sua criação: cada movimento de câmera e elemento enquadrado significa muito.

O diretor se expressa com as imagens como um poeta o faz com as palavras. As longas panorâmicas e travellings da câmera acompanham a movimentação de Cléo de maneira ensaiada para parecer acidental, mas sem nunca a perdê-la de vista. Não é uma câmera generosa ao ponto de seguir os personagens, só ativa o suficiente para mantê-los enquadrados. Em outros momentos, se mantém estática, terceirizando a dinâmica para a edição. Numa cena em particular, em que algo extremamente triste ocorre, não há nem o benefício de uma edição fluida: somos forçados a presenciar o evento num só enquadramento, intensificando a inquietação do espectador. Com a profundidade de campo, Cuarón define qual é o foco de cada segundo da cena.

Essa rigidez reflete a falta de flexibilidade da vida, que como o mar (metáfora utilizada em dado momento do filme), nos empurra com suas fortes ondas para direções que desconhecemos e, muitas vezes, não quereremos estar. Mas da mesma forma que a maré nos puxa para buracos, pode nos dar impulso em direção à terra firme. A mesma vida que nos proporciona prazeres é responsável por nossas dores – em medidas desconhecidas e indiscriminadas. E não é por ter essa abordagem que o filme se aliena ou não reconhece como certas instituições tomam parte na distribuição dessas dores, esse só não é o foco.

O elenco todo contribui com suas atuações pouco afetadas e/ou críveis. A atriz Marina de Tavira convence no difícil papel de Sofia, uma mulher que reage de formas extremamente variadas aos eventos que a cerca. Porém, o grande destaque é a atriz principal, Yalitza Aparicio, que conduz cenas dificílimas com muito proeza ao simplesmente estar inserida nelas. Tudo que ela faz soa autêntico, apagando as linhas entre atuar e ser. Seu rosto e a movimentação de seu corpo capturam perfeitamente a imprevisibilidade da vida, o que é fundamental para a proposta de Cuarón funcionar.

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário!
Digite seu nome aqui