O documentário RBG, de 2018, conta a história da Associada de Justiça da Suprema Corte dos EUA, Ruth Bader Ginsburg. O longa, indicado a dois prêmios Oscar, mostra a trajetória da personagem de forma objetiva e breve, começando de sua juventade até sua atual atuação no Supremo. Com isso, temos um vislumbre de sua importância na luta pela igualdade de gêneros e criamos uma simpatia instantânea pela sua figura – do tipo que nos faz pensar “poderia ter um filme ficcional sobre essa mulher”. Eis que Suprema, também de 2018, chega aos cinemas para realizar esse desejo. O longa de Mimi Leder, porém, oferece um recorte mais limitado: o da sua juventude, mais especificamente no que diz respeito ao início de sua carreira.

A cena de abertura é bastante simbólica, com a protagonista andando na direção oposta de uma multidão de homens. Depois disso, a história começa, contando os seus primeiros dias na universidade Harvard. Ela era uma das poucas mulheres na turma de direito, e a diretora faz questão de demarcar isso, com a troca de olhares entre as mulheres em cena, enquanto o professor faz um discurso voltado para o público masculino. Só com isso, já entendemos que o caminhar da personagem não será fácil e, de fato, isso fica bem evidente à medida que a trama se desenvolve. Além de ter que lidar com demonstrações de misoginia no meio acadêmico, Ginsburg ainda enfrenta as inúmeras barreiras para mulheres no mercado de trabalho.

O roteiro enfatiza o quão enraizado está o machismo na cultura estadunidense, com diversos homens acreditando que a mulher deveria ficar em casa, num lugar de subserviência. Em outros casos, porém, o machismo é menos escrachado, como é mostrado através do personagem Mel Wulf, de Justin Theroux. Ele se apresenta como um amigo e aliado da causa feminista, mas logo em sua introdução já fica claro que ainda é um homem exercendo seu poder em benefício próprio.

Ao longo do filme, ele constantemente tenta dar ordens e desacreditar a protagonista, de forma bastante insistente e perversa. Talvez o maior equívoco no longa seja minimizar sua toxicidade pelo fato de estar no lado certo. O texto tenta vender uma ideia de “bom excêntrico”, sendo um homem difícil, mas bem-intencionado (afinal, ele resolve ajudar a protagonista, então no fundo deve ter bons princípios). Infelizmente, sua retratação é tão artificial que fica difícil de enxergar além da casca, apesar dos diálogos mostrarem supostas justificativas para sua relutância inicial e outras decisões questionáveis. Parece que o personagem se perde muito na caricatura e quando devemos levá-lo a sério, não conseguimos.

Outro erro que a cinebiografia comete é na forma como distribui o seu foco. Todo o primeiro ato é centrado na vida universitária de Ruth, enquanto o resto retrata o seu trabalho no caso de Charles Moritz, que marcou o início de sua luta na esfera legal. Os dois capítulos até estão relacionados tematicamente, mas narrativamente não possuem uma ligação muito orgânica. Só os problemas que ela tinha no início já serviriam para construir um baita roteiro, mas tudo é “resolvido” brevemente, para avançarmos para o próximo capítulo.

O pior é que isso não ajuda muito, já que toda a resolução do caso também fica mais corrida do que deveria, com tempo sendo perdido pela interação de Ruth com personagens secundários menos interessantes. Em boa parte, esses momentos servem para atestar ainda mais as complexidades pelas quais as mulheres tinham que passar na época, mas tudo poderia ser aprofundado com um pouco mais de sutileza, enquanto a trama enfocasse num problema específico. O filme acaba ficando demasiadamente convoluto, apesar da estética simples e didática.

Mas, mesmo com esses problemas, há muito para se aproveitar aqui. A atuação de Felicity Jones é bastante precisa, com um sotaque acertado (a atriz é britânica) e gestos comedidos, como a forma de movimentar a cabeça ou olhar para alguém. Ela também consegue passar muito efetivamente a timidez e implacabilidade da protagonista, principalmente no final, quando deve apresentar sua defesa. Não é um trabalho visceral de transformação – até porque o filme não é tão voltado para o estudo da personagem – mas uma caracterização bastante convincente.

Armie Hammer também faz um bom trabalho como Martin, o fiel companheiro de Ruth. É positivo como o personagem foge do estereótipo de “marido perfeito”, sendo apenas um homem que genuinamente ama e acredita em sua esposa, apesar de nem sempre concordar com ela. O charme e o carisma de Hammer ajudam a construir a imagem de um homem que realmente quer desmantelar o machismo estrutural, apesar de estar adaptado ao mesmo.

O resto do talentoso elenco acaba ficando delegado a papéis estereotipados e/ou pouco substanciais, como Kathy Bates, Jack Reynor Cailee Spaeny (além do já mencionado Justin Theroux). No caso de Spaeny, porém, a sua personagem (que é filha de Ruth) consegue trazer uma visão de mundo diferente dos métodos da protagonista, enriquecendo ainda mais o debate. O filme deixa de ser só sobre a busca por igualdade, mas também sobre como essa igualdade deve ser obtida. Seria pelo caminho legalista de Ruth ou pela luta nas ruas, como defende sua filha? O roteiro tenta não desmerecer nenhuma das alternativas, afirmando que as duas se complementam. Isso é mais colocado através de diálogos, mas uma cena em especial valoriza a ação direta como forma de mudar as relações. As leis – ou alterações nelas – surgiriam em decorrência disso.

Considerando tudo, Suprema é uma cinebiografia protocolar e cinematograficamente básica, às vezes falhando em contar a história da forma mais empolgante possível. Mas isso não a torna menos recomendável, principalmente para quem se interessa por filmes de tribunal, pela luta por igualdade ou por uma das figuras mais importantes da história político-jurídica estadunidense.

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