Bruxaria, dança e Berlim – esses são os três elementos que ligam Suspiria – A Dança do Medo ao terror homônimo de 1977. Para a decepção (ou alegria) de quem esperava um remake ou continuação do clássico de Dario Argento, o diretor Luca Guadagnino só se utiliza de premissa similar para contar uma história própria. Qualquer ligação maior – temática ou não – com o original vai depender diretamente das capacidades interpretativas do espectador. O que testemunhamos aqui é algo completamente diferente e mais ambicioso.

Para começar, o design de produção teatral e a fotografia saturada do primeiro são trocadas por sets realistas e uma paleta de cores mais sóbrias. A arquitetura luxuosa da escola de dança e os planos vistosos – sempre em ambientes fechados ou emparedados – realçam a atmosfera opressora de uma Berlim politicamente conturbada. Em paralelo à trama central, que envolve uma disputa de poder entre as matriarcas da escola, temos um cenário de polarização extrema, com violência sendo utilizada como instrumento político, sendo exibido brevemente pela TV e tangenciando as vidas das personagens. O que isso adiciona ao filme? Só você pode dizer, pois seria desonesto tentar dar resposta para algo indefinido.

Antes de uma história a ser contada, Suspiria é um evento, uma atração sensorial que deve ser experimentada individualmente. O terror aqui sentido não se deve a sustos baratos ou monstros horripilantes (apesar desses estarem presentes também), mas ao sentimento que nos é passado através das imagens perturbadoras e da sonoplastia potente. A câmera examinadora e distanciada de Guadagnino, aliada a uma edição inquietante e aos outros aspectos técnicos já citados, extraem o horror de pequenas coisas, como um rosto muito próximo, um grito ou uma sequência de pulos. Há a constante subversão da naturalidade de certas situações que, em qualquer outro filme, seria mero detalhe. Com isso, o espectador permanece apreensivo, tendo a sensação de que algo muito ruim está para acontecer.

Mas não só de pequenos detalhes se sustenta a direção de Guadagnino, pois ele também trabalha muito na base dos contrastes. Se o ambiente é silencioso, um objeto jogado ou um pequeno movimento tem um barulho estrondoso, enquanto o uso pontual de cores saturadas surge para nos trazer sufocamento. O mesmo vale para a gráfica violência e elementos grotescos, tornando o simples ato de olhar para a tela desafiador.

Há também um importante toque onírico, comparável aos filmes de David Lynch e Alejandro Jodorowski. A diferença é que, aqui, a evolução para esse estágio é gradual: sem nos darmos conta, Guadagnino nos mergulha num lindo e perturbador pesadelo. Esse efeito é alcançado pelas lacunas deixadas tanto pelo roteiro quanto pela fotografia, que vai do palpável ao opaco com muita flexibilidade. Há um caráter fluido e quase transcendental no que assistimos.

Mas, assim como suas personagens numa dança, Guadagnino sabe exatamente quando deve firmar seus pés no chão, com zooms abruptos que enfatizam pontos importantes para o desenvolvimento da trama. Essa, por sinal, fica cada vez mais difícil de se acompanhar ou se elucidar, justamente pelo caráter onírico que o filme busca. Porém, mais do que entender, devemos sentir o que o diretor nos quer passar. Uma vez que isso é feito, flertamos com noções referentes à liberdade, amor, engajamento político, vaidade, rebeldia, os efeitos da repressão e sabe-se mais o que. Tudo que sabemos é que há uma disputa de poder na escola de dança na qual a protagonista está hospedada, com um idoso e arrependido psiquiatra tentando entender o que está ocorrendo, após o desaparecimento de uma de suas pacientes que fazia parte da instituição (e de um grupo guerrilheiro que está no centro dos conflitos políticos mencionados anteriormente).

O elenco todo trabalha muito bem nos diferentes níveis necessários: algumas mais puxadas para o desespero, outras para a euforia. A protagonista Dakota Johnson consegue transmitir muito bem a inocência e a sede por aprendizado de sua personagem, que em certo ponto se torna puro poder. Porém, é Tilda Swinton que realiza os feitos mais impressionantes aqui. Além de interpretar a intimidadora Madame Blanc, ela é coberta por camadas de maquiagem para se transformar no frágil Dr. Klemperer e na repugnante Helena Markos. Não se sabe exatamente com qual propósito a atriz foi escalada para os três papéis, mas ela os realiza com eficácia. Sentimos muita empatia por Klemperer, que busca explicar o inexplicável através da ciência e carrega uma mágoa profunda que mais tarde vem a ser explorada. Como Blanc, por outro lado, ela verbaliza (de forma apropriada para a obra) boa parte do que o filme tenta trazer ao falar da dança, sempre com muita intensidade e superioridade. Sua palidez, seriedade e seus cabelos longos conferem a ela um visual naturalmente intimidador, enquanto sua atuação explicita muito bem o caráter manipulador e, por fim, inevitavelmente humano da personagem.

Aliás, vale destacar o clímax, que nada mais é do que uma mastodôntica força da natureza. Dizer que é o êxtase do filme não só seria redundante, como também muito pouco para me referir a tal. Guadagnino usa todos os artifícios a seu alcance para criar um perverso e estranhamente belo espetáculo, que se move como um organismo vivo. É como se ele nos oferecesse uma vista privilegiada do fim dos tempos, comparável ao que Francesco Bertolini e Adolfo Padovan conseguiram fazer em 1911 com L’Inferno (com muito mais traquejos visuais, evidentemente).

Com essa e outras sequências, Luca Guadagnino consegue fazer o impensável em tempos de entretenimento descompromissado: nos transportar para outra dimensão, enquanto faz uma declaração de amor à vida e à independência da mente e do espírito. O seu Suspiria é uma verdadeira montanha-russa de emoções, uma orquestra de insanidades e um devaneio coletivo, que precisa ser experienciado na maior tela possível. O que cada um vai tirar disso, aí é outra história.

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