Adam McKay não é exatamente um novato quando o assunto é comédia. Sua experiência no campo é vasta, com clássicos modernos como O Âncora e Quase Irmãos em seu currículo. Então, quando resolveu fazer um longa sobre a corrupção sistêmica que levou a uma das maiores crises econômicas da história recente, seu senso de humor caricato veio a calhar – pois só seria possível absorver tal barbaridade como uma grande piada. Isso foi A Grande Aposta, filme de 2015 editado por Hank Corwin e estrelado por Christian Bale e Steve Carell. A produção apareceu em diversas premiações importantes e rendeu a McKay um Oscar de Melhor Roteiro Adaptado. Três anos depois, o cineasta se reúne novamente com o trio para aplicar a mesma fórmula de sucesso numa cinebiografia de Dick Cheney – e o resultado é Vice.

Quando digo mesma fórmula, me refiro a exatamente o que parece: os mesmos métodos empregados em A Grande Aposta são vistos aqui. O roteiro é altamente metalinguístico (com constantes quebras da quarta parede) e irreverente, enquanto a montagem é frenética e, por vezes, intrusiva, com imagens de arquivo intercalando as que foram realmente filmadas para o longa. A única diferença significativa é a câmera: ao invés de tremida e repleta de zooms (gerando uma proposital desorientação e um senso de realismo), aqui tudo (ou quase tudo) é filmado de forma mais convencional, como um drama regular.

Essa mudança é muito bem-vinda, considerando que, diferentemente de A Grande Aposta, Vice possui um foco narrativo mais específico. Afinal, McKay está contando a história de um personagem, e não de um grande problema no centro da vida de várias pessoas. Sendo assim, por que Vice soa tão perdido em sua própria narrativa? Simplesmente porque falta ao roteiro o mesmo rigor e foco de sua direção.

Ao invés de se preocupar com o desenvolvimento de seu protagonista, o filme busca explicitar cada ponto de maneira breve para avançar para o próximo, numa tentativa de captar a totalidade do legado desastroso da política externa da administração Bush – segundo o filme, definida pelos desmandos de Cheney. Essa abordagem é problemática, pois tenta trazer objetividade para questões políticas, filosóficas e morais tão complexas, que precisariam de pelo menos mais uma hora de duração (o longa tem 2 horas e 12 minutos) para poder dar certo. Ele tenta ser didático em questões mais técnicas, mas ficamos sem entender os motivos por trás das ações dos personagens.

Na trama, Cheney é uma figura enigmática: nunca se sabe exatamente o que ele sente ou quer. Dessa forma, ele passa de um jovem adulto em busca de um espaço entre os poderosos para um tirano com motivações completamente egocêntricas num piscar de olhos. Não que os dois retratos sejam imprecisos, mas falta um desenvolvimento plausível de um para o outro. É quase como se estivéssemos vendo uma caricatura, e não um ser humano – o que é prejudicial para a compreensão dos eventos, dada a densidade do texto. Na falta de um direcionamento em sua crítica ou tese sobre as ações do homem, sobra uma obra vazia e pouco efetiva como cinebiografia – o que é frustrante, considerando o potencial que tinha. Se isso ao menos soasse proposital, já seria um olhar, mas nenhum argumento sobre a aleatoriedade de seus desejos é feito (apesar do roteiro brincar com isso em determinado momento).

Não que o filme seja de todo o ruim: há certamente o que gostar aqui. A atuação de Bale, apesar de contida, é extremamente sólida, como quase todos os seus trabalhos. Ainda que o roteiro esconda muito da personalidade de Cheney, sentimos que há um ser humano de verdade por trás da casca meticulosamente construída pelo próprio ator (através de uma rigorosa dieta) e pela excelente maquiagem. Aliás, o elogio à equipe de maquiagem deve ser estendido ao seu trabalho em todos os membros do elenco, que realmente parecem mais velhos do que são.

Em termos de atuação, todos entregam também. Sam Rockwell e Steve Carell convencem e divertem como seus respectivos personagens, apesar da falta de semelhança física. A propriedade com a qual se apresentam (principalmente Rockwell como Bush) faz com que eles realmente sumam em seus papéis. O mesmo vale para Tyler Perry como Colin Powell, ainda que sua participação seja bem breve. Porém, o grande destaque do elenco é Amy Adams, que com tempo limitado de tela consegue explorar completamente as nuances de sua personagem, Liz Cheney. O seu olhar e sua fala, carregados de sentimentos (às vezes conflituosos), conseguem transmitir com precisão tudo que ela deveria sentir. Talvez seja a única figura aqui que não foi reduzida a uma caricatura – e a atriz faz bom proveito disso.

Outro ponto alto é a edição de Corwin, que em nenhum momento desacelera (até porque o roteiro não permite). A sua inserção de imagens de arquivo transmite o impacto que cada uma deve trazer, amplificando o efeito das boas piadas que o roteiro faz. Aliás, apesar de realizar um superficial estudo de personagem, o texto de McKay apresenta algumas excelentes ideias, principalmente no que diz respeito ao humor.

Vice é muito engraçado quando quer ser, funcionando como uma comédia satírica. O problema é quando ele se arrisca a ir além disso, evidenciando a falta de consistência na retratação de seu protagonista. Talvez se ele tivesse abraçado o formato de sketches, não pareceria tão deslocado da história que queria contar, além de potencializar sua crítica a Cheney. A revolta pode ser boa e necessária, mas sem a devida organização, se torna palavras (ou, no caso, imagens) ao vento. É possível criticar através de caricaturas, assim como se deve registrar com seriedade os abusos de um governo, mas ao se perder no meio do caminho, é quase como se a oportunidade de informar fosse desperdiçada.

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