Quando o primeiro filme dos X-Men foi lançado, em 2000, o longa estava mais para uma releitura moderna dos clássicos quadrinhos do que uma adaptação fiel. Afinal, na época, o ideal seria vender algo mais próximo de Matrix do que de Superman. Com isso, todo o senso de encanto dos fantasiosos quadrinhos clássicos foi trocado por uma releitura sisuda, atual (para a época) e com uma pegada mais sci-fi. Os personagens usavam trajes pretos e funcionais, ao invés de uniformes cartunescos (como os da década de 1960) ou roupas multicoloridas e de diferentes formatos, como as da década de 1970 para frente (com algumas pontuais exceções). Porém, deu certo. O mais importante, que é o embate entre duas vertentes da causa mutante, conseguiu proporcionar boas dinâmicas (inclusive nas cenas de ação). Sem falar que havia um charme naquele visual pretensamente adulto.

Esse caminho foi percorrido até não dar mais, quando, em 2016, em meio a um mercado saturado, foram trajados de forma colorida e diversificada, remetendo aos quadrinhos da Era de Bronze. Esse era somente o final de X-Men: Apocalipse, mas criava expectativa para um futuro menos reverente e mais fantasioso deste universo (algo que os filmes do Deadpool já poderiam indicar). Quando foi anunciado que o próximo filme adaptaria, mais uma vez, a Saga da Fênix, então… Foi aí que pensamos que estava na hora dos X-Men decolarem para uma aventura espacial repleta de pirações. Agora, tendo visto o resultado, é possível dizer que estávamos enganados: X-Men: Fênix Negra se mantém fiel à estética que fundou a franquia nos cinemas – desde os trajes funcionais até o tom austero, tudo volta a ser como era antes do Apocalipse (uma evidente tentativa de quebrar esse molde).

Ao contrário do que muitos podem pensar, essa decisão do produtor, roteirista e diretor Simon Kinberg é bastante saudável para o filme e, inclusive, para o subgênero como um todo. Nem tudo precisa ser épico ou mágico: basta ter uma ideia específica e saber trabalhá-la. Aliás, é nesse último ponto que Fênix Negra falha. Apesar da tentativa evidente de replicar o estilo de Bryan Singer, tudo parece muito no automático. Das cenas de ação aos diálogos, a execução é muito protocolar e nem sempre é funcional. Um exemplo disso são as falas desnecessariamente expositivas, que retiram qualquer intensidade dos personagens e desperdiçam o potencial dramático que ganharam com os eventos ocorridos. Nem o talentoso elenco principal consegue driblar essas falhas, apesar de terem seus momentos (principalmente Sophie Turner e o sempre ótimo James McAvoy).

Outros problemas do roteiro são suas perceptíveis conveniências, com alguns personagens sendo desenvolvidos de maneira brusca. O que mais sofre com isso é o Fera (Nicholas Hoult) – suas motivações ou mudanças não conseguem ser propriamente apresentadas, fazendo com que suas decisões pareçam pouco naturais. Tudo isso só contribui para a artificialidade do filme que, no geral, apresenta um saldo positivo por ter uma proposta sólida. Na prática, acaba sendo um remake de O Confronto Final, corrigindo certos rumos duvidosos que a produção tomou.

O primeiro desses – e, talvez, o mais fundamental – é a redução das subtramas. Aqui, tudo basicamente gira em torno de Jean Grey (Turner) e os seus conflitos internos. Ela se torna a protagonista de sua história, o que também é um aprimoramento em relação ao outro filme. Ao invés de torná-la um monstro, há um olhar mais empático para com a jovem heroína, mostrando que, com o devido apoio, todos têm salvação.

O arco do Professor X (McAvoy) é quase tão importante quanto, pois resgata antigas discussões da série, como a validade do seu método. A sua aproximação do poder público e o controle sobre os alunos são colocados em questão, sem abrir mão da integridade moral do personagem. No fundo, genuinamente acredita que está fazendo o melhor para protegê-los de um mundo cruel – ainda que cometa erros grosseiros no processo.

Do outro lado, temos Magneto (Michael Fassbender), que finalmente encontra um pouco de paz, mas também sem abrir mão de seus princípios (sua visão menos esperançosa e apaziguadora do que a de Charles). É uma solução apropriada para o anti-herói e segue fielmente o cânone. Além disso, ele protagoniza alguns dos melhores momentos de ação, onde Kinberg realmente reconhece a poderosa iconografia que os personagens podem proporcionar. O problema maior é quando envolvem muito movimento, revelando decupagem e coreografia pouco inspiradas, além de efeitos visuais muito carregados. Mesmo assim, é possível perceber que a integração da equipe poucas vezes esteve tão fluida (destaque para o resgate espacial no início e a sequência na casa de Jean).

Outro ponto que vale destacar é a vilã de Jessica Chastain. Havia muitos mistérios envolvendo sua figura e, de fato, pode ser algo bem familiar para o público. Ainda que o conceito seja promissor, tudo que envolve a personagem não deixa de ser mal aproveitado e convencional. De qualquer forma, a atriz consegue entregar uma tremenda atuação, com uma fisicalidade intimidadora.

Entre outras tecnicidades, podemos ressaltar, evidentemente, o figurino funcional e elegante, e a música envolvente de Hans Zimmer. Não está entre os seus trabalhos mais originais ou distinguíveis, mas adiciona o seu bem-vindo toque pessoal a uma franquia que mal sabíamos que precisava tanto do mesmo. Ótimo casamento.

Apesar de imperfeita, X-Men: Fênix Negra é uma conclusão minimamente digna para a saga. Teria se beneficiado com um roteiro mais engenhoso e uma direção mais ousada, mas tem o coração no lugar certo, com uma execução enxuta e coerente com o tom predominante dos outros capítulos. O ponto alto é que consegue ser mais consciente em sua adaptação da Saga da Fênix, dando a Jean Grey, finalmente, o espaço que merece.

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