Em um grupo de amigos, discutir sobre política é quase sempre uma tarefa muito difícil, pois as diferentes opiniões causam discussões calorosas e que podem resultar em brigas e discórdia. A sociedade sempre diz que a corrupção é o grande causador do mal que assombra o Brasil, sem lembrar que ela mesma contribui para os problemas que existem no nosso país. Desde jogar o lixo na rua até ter uma relação extraconjugal, nossas atitudes definem o que somos e, consequentemente, repercutem negativamente (ou não) no mundo em que vivemos.

De certa forma, esse é um dos pontos abordados por O Banquete. O roteiro dele inspira-se em eventos que aconteceram durante o governo de Fernando Collor de Mello, sobre uma carta aberta escrita pelo jornalista Otávio Frias Filho com denúncias ao então presidente do Brasil. No filme, o jornalista vira um editor de revista chamado Mauro. E mesmo que a política não seja o ponto principal, ela é muito importante dentro do filme, principalmente por estar sempre presente nos discursos dos personagens.

E uma das grandes forças do longa são os seus diálogos. Sendo completamente ambientado em uma sala de jantar, a conversa entre os anfitriões e seus convidados é carregada de deboches e ironias, onde todos estão sempre trocando farpas. Os diálogos grosseiros, vulgares e eróticos podem parecer estranhos inicialmente, mas eles representam exatamente o quão tóxico é aquele ambiente. O filme é pautado através deles, movimentando a trama de uma forma que consegue instigar a atenção do espectador à todo momento.

O público só conhece os personagens naquele contexto. Assim, o que constrói a personalidade e o caráter de cada um não são só as atitudes, mas também os podres e problemas que são revelados, deixando a narrativa ainda mais interessante. Mesmo que a câmera esteja focando em apenas uma pessoa, ela corta para as outras possibilitando a visualização das expressões e reações delas, diante do momento. Tudo isso é reforçado pela maneira inteligente que o espelho da sala é utilizado. Ele é um elemento que distorce a imagem de todos os convidados, sempre dizendo que aquelas não são suas verdadeiras faces.

O trabalho de trilha sonora constrói perfeitamente o clima de apreensão que paira sobre o jantar. Cada vez que chega um convidado, a música e o som entram e deixam tudo mais tenso, dizendo claramente que a nova visita vai estremecer o momento ainda mais.

Num todo, O Banquete funciona como uma peça de teatro. O plano inicial era exatamente esse, visto que o que mais chama atenção são as atuações. Mas a ideia também funciona no formato de longa-metragem. A diretora Daniela Thomas soube escalar um elenco de qualidade e dirigir todos os atores muito bem, arrancando excelentes interpretações.

Drica Moraes (Nora) e Mariana Lima (Beatriz) trazem atuações fortes e embates intensos entre suas personagens, onde ambas trabalham bastante com as expressões, que dizem mais do que suas falas. Caco Ciocler (Plínio) e Rodrigo Bolzan (Mauro) estão ótimos em seus papéis. O primeiro traz um impressionante misto de loucura e lucidez, enquanto o outro caminha bem entre o medo e a segurança. Destaque também para Chay Suede como Ted que, mesmo aparecendo pouco, funciona como o próprio espectador dentro do filme – observando tudo que acontece no jantar.

Lucky e Maria, personagens de Gustavo Machado e Fabiana Gugli, são praticamente o alívio cômico por causa do que discursam. Machado já fez um personagem homossexual na sua carreira, mas ele acerta em trazer um tom completamente diferente. Lucky é astuto e traiçoeiro, sempre fazendo o espectador rir com seus olhares e pela forma como ele escancara as verdades dos convidados. Maria é o elo mais frágil em volta daquela mesa de inimigos. Fabiana Gugli traz uma postura curvada que diz muito sobre a personagem, parecendo sempre estar prestes a ser devorada – como sugere a cena inicial, onde uma mosca é pega por uma planta carnívora.

No ato final é onde O Banquete encontra alguns problemas. Nesse momento a força do discurso começa a se perder. A inserção das personagens de Helena (Georgette Fadel) e Catwoman (Bruna Linzmeyer) ficam sem sentido dentro do contexto. As atrizes estão bem, mas ambas ficam sem função dentro da trama e não conseguem passar claramente o motivo de estarem ali.

O Banquete tem uma narrativa interessante com diálogos provocativos, que sempre deixam a curiosidade do que virá em seguida. O elenco é excelente e trazem ótimas atuações, em um filme que mesmo se passando nos anos 90, diz muito sobre a nossa sociedade atual e sobre como a política ainda tem muito a melhorar.

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