Talvez o fato de Koe no Katachi ser um filme com mais de duas horas de duração e não fazer parte do gênero mais popular entre os animes, pode fazer com que muita gente desista ou nem se interesse por assistí-lo, mas sua sexta posição no MyAnimeList, com 9,14 pontos, mostram um pouco do seu potencial.

O longa foi lançado em setembro do ano passado, mas só no último mês que as fansubs terminaram de legendá-lo. Depois de acompanhar as discussões que surgiram na internet, decidi assistir para entender porque as críticas estavam tão positivas.

Seu título​ pode ser traduzido como “A Voz Silenciosa”, já que tem como personagem principal Ishida, um jovem que pratica bullying com uma garota surda quando era criança, mas que começa a mudar de atitude quando a reencontra no ensino médio.

Assim como a maioria dos animes, Koe no Katachi aborda, de certa forma, a amizade, mas de uma maneira muito mais sensível. Enquanto é comum vermos o companheirismo e o trabalho em equipe como tema vigente, aqui o foco são as relações interpessoais, o problema que elas podem causar e como cada um reage às adversidades.

Nós acompanhamos a maioria dos personagens desde a infância, o que faz com que sua construção de personalidade tenha nuances e evoluções. O próprio protagonista é um exemplo disso: a princípio você pode sentir raiva dele, mas aos poucos entende seus verdadeiros sentimentos, que o guia para a redenção e o perdão.

Mesmo que o personagem principal tenha muita presença e seja o condutor de toda trama, é Nishimiya quem rouba a cena. Sua deficiência é tratada com muita delicadeza, sendo praticamente impossível que o público não sinta pena dela. Eu acredito que a abordagem foi feita com muito cuidado e respeito, mas que ainda exista coragem por tocar em pontos muito fortes, e de forma tão explícita, até mesmo para uma animação.

Os outros personagens também são importantes para conduzir a história, apresentando personalidades distintas e bem desenvolvidas ao longo da trama, com uma notável evolução de seu modo de agir e pensar. Até mesmo os trejeitos dos personagens são humanamente críveis, aproximando-os do público pelas suas peculiaridades.

A animação é do estúdio Kyoto Animation, que novamente conseguiu deixar sua marca de qualidade. Os traços continuam com a característica já conhecida, mas a fluidez dos movimentos e o plano de fundo conseguem se sobressair, deixando o universo da trama mais rico e criando uma boa atmosfera.

Em muitos momentos é possível compará-lo a um filme live-action, seja pela montagem ou o modo dos personagens agirem, além da ausência de aspectos cartunescos. Já em relação ao som, não há nenhum momento em que a trilha se destaque, sendo usada pontualmente de forma incidental.

O ponto mais importante aqui é sua história, que conta com uma riqueza de veracidade tão grande que pode até ter acontecido na vida real. Não há elementos fantasiosos ou mágicos, e as situações pelas quais os personagens passam são cotidianos a ponto de já terem acontecido com você.

O bullying é retratado explicitamente, e suas consequências vão ganhando uma dimensão tão grande que chega a tratar de suicídio, outro assunto que merece e precisa ser debatido. O filme é uma importante reflexão sobre nossas ações e como podemos ferir o outro sem percebermos, além de que nunca é tarde para pedir perdão.

Tive um certo receio da animação seguir para o caminho do romance em um certo momento, não porque não gosto do gênero, mas pelo fato de que não é preciso ir por esse caminho. A amizade entre os dois personagens principais é bonita pelo modo como ela floresce e a importância de entender e se colocar no lugar do próximo.

Inclusive, o recurso utilizado para expressar a solidão do protagonista em meio a uma multidão de alunos da sua escola foi feita da melhor maneira possível: clara e funcional. Um aspecto positivo em relação a condução da história.

Koe no Katachi merece a posição que ocupa pela importância do tema abordado e a execução, onde os personagens são imperfeitos como qualquer um de nós, o que deixa sua jornada de aprendizado ainda mais interessante. Ele gera o impacto necessário, sensibilizando o espectador por meio de uma reflexão que todos nós devemos fazer. Este filme merece sua atenção, mesmo que você não seja fã do gênero.

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