Posso dizer que sou um fã de Power Rangers há muito tempo. Passei o fim da década de 90 e os anos 2000 acompanhando a série na saudosa TV Globinho, e lembro até hoje de como fiquei ansioso para assistir o filme na Sessão da Tarde da época. O Super Sentai é um gênero amado por uns e odiado por outros, afinal se trata de um grupo de heróis coloridos soltando faísca e lutando em robôs gigantes. Os Power Rangers que eu assistia tinham características muito peculiares: eram bregas, toscos, previsíveis e infantis, mas sempre agradou seu público. Quando soube da ideia do reboot confesso que fiquei preocupado, pois a proposta mudaria tudo que eu cresci assistindo. A grande questão era saber o quanto de Power Rangers ele teria.

O novo filme começa focando na vida colegial, com direito a todos os arquétipos que existem, como os alunos populares, esportistas e a clássica rixa entre valentão e nerd. O longa se preocupa em fazer filmagens banais de ângulos e perspectivas diferentes, o que resulta em uma ótima experiência cinematográfica. Enquanto as coisas parecem acontecer de forma rápidas e coincidentes demais em seu início, ele começa a perder seu ritmo com os heróis já estabelecidos. A todo momento é lembrado a importância do trabalho de equipe e entender as diferenças do outro, mas se perde um tempo que poderia ser aproveitado em outras questões, como nas poucas cenas de ação.

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Todos os Rangers contam com seus dramas familiares e pessoais, insatisfeitos com suas vidas e arrependidos por seus erros, fazendo com que se identifiquem como uma equipe de perdedores e desajeitados. O grupo funciona quando está unido, e em alguns momentos podemos perceber seus medos, dúvidas, caráter e até o que se passa na cabeça dos protagonistas. O filme consegue trabalhar isso de forma mais profunda que o original, mostrando que os personagens não são diferentes apenas nas cores de seus uniformes, mas também pela personalidade de cada um.

A trama se desenvolve de forma simples, sem reviravoltas ou plot twists. Isso não é um problema, visto que o público alvo deve entender com clareza tudo que esteja acontecendo, e uma trama complexa não alcançaria todos. Por isso, a simplicidade do roteiro foi o caminho escolhido, mesmo que isso possa influenciar negativamente a experiência do público mais adulto. A vilã Rita repulsa, por exemplo, chama atenção por ser assustadora e amedrontadora, mas continua cometendo os erros típicos de vilões genéricos, como contar os planos para os heróis ou soltá-los das armadilhas por nenhum motivo aparente.

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É importante destacar que mesmo sendo voltado para uma nova geração e com cara de blockbuster, Power Rangers não é um filme adulto como no curta que estava circulando na internet. Desde o início, o reboot deixa claro que seu foco é o público infanto-juvenil, o que faz sentido ter muitas piadas e alívios cômicos, principalmente por parte do ranger azul. Como forma de comparação, é como acontece nos filmes da Marvel, que pretende levar aos cinemas desde as crianças aos fãs dos quadrinhos mais antigos.

Mesmo pecando em seu desenvolvimento, há outra mudança de ritmo quando os personagens morfam pela primeira vez. Nesse momento, confesso que não foi algo tão memorável para mim como eram nos clássicos. Talvez pela ausência dos morfadores ou as famosas cenas de transformação, mas isso não caberia na proposta do filme. Ao invés disso, as armaduras surgem da pele dos personagens, e os uniformes ganharam uma importância muito maior do que simplesmente vender bonecos. Quando estão sem eles, os Rangers se machucam como qualquer ser humano, mas quando morfados ganham uma proteção muito útil, o que faz bastante sentido em uma batalha.

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As cenas de luta no chão duram pouquíssimo tempo, mas o suficiente para perceber que a computação gráfica não passa realismo. Se fosse uma animação de Power Rangers, o trabalho estaria fantástico, mas para uma versão live-action deixa a desejar. Os zords separados também é algo que não funcionou da forma que eu esperava. Durante alguns momentos a ranger amarela, por exemplo, fica praticamente esquecida, o que deixa de lado toda questão de trabalho em equipe discutida o tempo todo. Em outros momentos a luta se tornava repetitiva e refém dos efeitos, apresentando mais do que já vimos em outras produções com batalhas de robôs. Por outro lado, as coisas começam a melhorar com o surgimento do megazord. Ele sim mostra a importância da cooperação, e sua aparição é tão grandiosa quanto ele próprio, fazendo jus ao “mega” de seu nome.

Através desse reboot é possível sentir nostalgia, debater assuntos pertinentes à juventude e apresentar novos heróis para as crianças. É uma nova opção para os que estavam cansados com as fórmulas da Marvel ou DC nos cinemas. A representatividade é um destaque, mostrando que a franquia evoluiu assim como a sociedade. Ela se preocupa em trazer para o fã um herói como ele, para que possa se espelhar.

É bom deixar claro que o filme não faz parte do gênero Super Sentai, mas ainda existe um grande respeito com a série original, incluindo sua mitologia, personagens clássicos e essência. Ele trata de jovens descobrindo habilidades especiais e tentando salvar o universo, uma forma repetida milhares de vezes, mas que ainda pode ser reinventada. Eu assisti em uma sessão lotada de crianças e todas elas saíram muito animadas e satisfeitas com o que viram, então acredito que o objetivo foi alcançado: apresentar esse universo para uma nova geração e trazer novos fãs para a franquia.

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