Para celebrar a estreia de Era Uma Vez em… Hollywood, nada melhor do que uma lista para relembrar e comparar todas as obras de Quentin Tarantino, não? É o que será feito aqui, contemplando todos os seus longa-metragens, de Cães de Aluguel ao seu lançamento mais recente. Vá movendo para o lado e veja todos os itens da lista:

10. Era Uma Vez em... Hollywood (2019)

O filme mais recente do aclamado cineasta pode ser o seu pior - o que não quer dizer que é ruim. Muito pelo contrário: não só tem ótimas atuações (com destaque para a dupla DiCaprio e Pitt), como também oferece um interessante estudo sobre as relações sociais da Hollywood no final dos anos 1960, com todas as suas contradições preservadas pela paciente câmera do diretor. Pode não ser Tarantino em seu momento mais inventivo ou contagiante, mas certamente em seu mais sensível e reflexivo, além de ainda ter o suficiente de seu padrão de qualidade para garantir a alegria dos fãs. Para saber mais, confira a nossa crítica.
9. Jackie Brown (1997)

Manter o nível depois de Pulp Fiction não é tarefa fácil, então Tarantino fez muito bem ao optar por um longa menos ambicioso e mais objetivo. Jackie Brown é um típico thriller criminal, misturado com comédia, misturado com... bom... um filme do Quentin Tarantino. Tudo isso para compor uma narrativa fechada, pé no chão e com toques idiossincráticos que imediatamente remetem ao diretor. Mas, ao invés de pairar sobre eles com um fascínio digno de seus melhores filmes, incorpora-os à trama para dar segmento a essa cativante história de sobrevivência. Isso sem mencionar os personagens, que estão entre os seus mais autênticos: seja a valente protagonista de Pam Grier, o excêntrico traficante de armas de Samuel L. Jackson, o monossilábico capanga de Robert De Niro, ou o enamorado agente de fianças de Robert Forster.
8. Kill Bill Vol. 2 (2004)

Sabemos que Tarantino considera os dois Kill Bill um filme só, mas não é o caso aqui. Vendo ambos como obras distintas (algo que o público fez ao testemunhá-los no cinema), pode-se dizer que a principal virtude do segundo volume é dar continuidade (e um digno e comovente fechamento) à aventura iniciada pelo primeiro. Adicione isso a uma composição visual deslumbrante, enquadramentos icônicos, uma ação surtada e, bom, praticamente tudo que deu certo no primeiro, e temos mais um cult instantâneo do diretor. Vale lembrar também da introdução de um dos vilões mais estilosos da história do cinema: Bill (interpretado com a devida confiança e gosto por David Carradine).
7. Bastardos Inglórios (2009)

Esse pode ser o favorito de muitos, o que é compreensível. Bastardos Inglórios consegue se destacar em meio a tantos filmes de Segunda Guerra Mundial pelo simples fato de ser uma obra típica de Tarantino, carregada de toda sua estilização e ousadia. Além da conclusão simbólica e potente, o longa está repleto de cenas desconcertantemente intensas, como a dos "três copos", "gorlomi" e tudo que envolve o sanguinário Hans Landa. Este último, inclusive, também deve estar entre as criações mais memoráveis do roteirista, principalmente pela serenidade com a qual realiza os mais inacreditáveis atos de crueldade (e pela forma como isso é traduzido na premiada interpretação de Christoph Waltz). Engajante, meticulosamente lapidado e icônico, Bastardos Inglórios merece um lugar de destaque em qualquer lista.
6. Django Livre (2012)

Django Livre é exatamente o que se esperaria de um Western de Quentin Tarantino: hiperestilizado, enérgico, repleto de reviravoltas e completamente pautado na realidade social da época. A maneira como o protagonista enfrenta e supera todos os obstáculos com os quais se depara é extremamente satisfatória para o público, principalmente por conta de sua atitude badass e pela propulsão com a qual esses momentos são executados. Seja através dos abruptos zooms, do uso pontual da música ou da própria intensidade das personagens, tudo confere a urgência necessária para prender a atenção do espectador, o que vale também para os momentos mais tensos, que precedem os conflitos. As atuações memoráveis de Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio e Samuel L. Jackson também são fundamentais para o sucesso do projeto, capturando perfeitamente as particularidades das figuras retratadas.
5. À Prova de Morte (2007)

Uma grande homenagem ao tipo de cinema que moldou toda uma geração de cinéfilos, À Prova de Morte traz necessário revisionismo ao terror slasher com muito humor e satisfação. Também pode ser um dos longas mais propositalmente artificializados e tecnicamente desafiadores do diretor, pois deve replicar as convenções do subgênero e imprimir alguma tensão mesmo assim. Felizmente, consegue fazê-lo com primor, transcendendo sua proposta paródica e cínica. É simplesmente um thriller que pega, nos deixando com medo da carranca de Kurt Russell e abrigados pelo companheirismo das protagonistas.
4. Kill Bill Vol. 1 (2003)

Talvez o filme mais "fora da casinha" do autor. Uma espécie de pastiche de filmes de espionagem, vingança e samurai, mas extremamente próprio, apesar de tudo. Acaba sendo o longa que perfeitamente resume Tarantino como artista, para a alegria ou tristeza de muitos. Coloque toda essa cinefilia de lado, e ainda é um filme muito maneiro, com cenas de ação brutais (quando não propositalmente fake), edição frenética e atuações de alto nível por parte de Uma Thurman e Lucy Liu. A forma inusitada como constrói os embates (logo no início temos aquele icônico infrared na casa da Vernica) mostra como é um filme livre dentro do escopo de referências do diretor - terreno rico o suficiente para gerar algo novo.
3. Os Oito Odiados (2015)

Facilmente definido como Cães de Alguel no Velho Oeste, Os Oito Odiados pode ser o filme mais erudito de Tarantino - o que, para um cara com a cultura fílmica que tem, não é pouco. Desde a cadente música de Ennio Morricone até a polida fotografia em 70 mm de Robert Richardson, tudo dá o verniz mais sofisticado possível à verborragia vulgar e violência perturbadora (aqui quase escatológica mesmo). Por baixo de toda a formalidade, transmitida também pela inicial diplomacia de seus personagens, há pura fúria, ressentimento e cobiça - algo que pode ser levado a diferentes níveis de interpretação. Mais um trabalho excepcional de Quentin Tarantino, que deveria ter sido mais reconhecido na época de seu lançamento.
2. Cães de Aluguel (1992)

Se Pulp Fiction consagrou a estética tarantinesca, Cães de Aluguel foi o prenúncio dessa consagração. Todas as características que aprendemos a amar em seu cinema estão muito bem espalhadas aqui, principalmente no que diz respeito aos diálogos, ao uso da música, às atuações e à estruturação da trama. A premissa minimalista ganha camadas inesperadas, explorando o perfil comportamental de seus diferentes personagens numa situação desesperadora. Todo o elenco, composto por nomes como Harvey Keitel, Steve Buscemi, Michael Madsen e Tim Roth, também está em seu ápice, o que ajuda bastante a transmitir as nuances de cada cena. Certamente uma aula de roteiro e atuação para qualquer um que pensa em seguir carreira no cinema.
1. Pulp Fiction (1994)

Existem os clássicos e existem filmes como Pulp Fiction, que, além de clássicos, se fixam em nossa cultura de forma tão visceral que é impossível dissociá-los da mesma - e o tempo mostra isso. Do cinema da década de 1990, quantos filmes se fazem tão presentes na atualidade quanto este? É o tipo de impacto cultural capaz de ressignificar músicas, homens de terno e até mesmo uma passagem da Bíblia. Só a criatividade de Tarantino para vender ao grande público uma trama estruturalmente desordenada (de acordo com os padrões hollywoodianos, claro), pautada por aleatoriedades e estrelada por personagens caricatos - que, sim, constantemente quebram nossas expectativas, mas não deixam de parecer tirados de um desenho animado. Tudo isso é elemento constitutivo da poética de Tarantino, que, aqui, encontra seu estado mais pleno, o que já pode ser percebido no primeiro momento em que Jules (eternizado por Samuel L. Jackson, um dos melhores intérpretes do autor) aborda os alvos de Marsellus Wallace. Entre tantos momentos icônicos, talvez seja o mais reassistível, intenso e simplesmente engraçado, com seu característico humor ácido. Mostra como um espaço cênico limitado consegue carregar tamanha potência, dependendo da decupagem, da combinação de palavras e do vigor da atuação. É a aliança perfeita entre texto e imagem, o dito e o não dito, a ação e a sugestão.

 

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