A questão da sobrevivência persegue a humanidade desde que o mundo é mundo. Não à toa, os filmes que tratam do pós-apocalíptico sempre tocam nesse assunto, com a visão pessimista de que o ser humano está cada vez mais individualista e destruindo o lugar em que vive. Apesar de A Luz no Fim do Mundo colocar uma doença como a causa do cataclismo, a proposta não foge de lugares comuns do gênero. Porém, a experiência cresce gradativamente à medida como a história se desenvolve.

No caso, a pandemia atingiu somente a população feminina, dizimando praticamente todas as mulheres do planeta. Rag (Anna Pniowsky), filha de Caleb (Casey Affleck), é a única sobrevivente de que se tem notícia, fazendo o pai protegê-la a todo custo. Com essa premissa, o filme abre brechas para vários subtextos, trazendo influências no enredo que lembram A Estrada (2009) e o jogo The Last of Us. A trama pouco original não se torna um problema, justamente pela narrativa se concentrar na relação de pai e filha, demonstrando um trabalho excepcional de Affleck na direção e roteiro.

O início, onde vemos uma longa história contada por Caleb para Rag, dita o tom de A Luz no Fim do Mundo. A empatia com os personagens é quase instantânea, mesmo com momentos monótonos no diálogo – algo que não se repete tanto no decorrer do longa. Ali, Rag se mostra um pai muito carinhoso e engraçado, mas que logo muda quando sua filha pergunta sobre a situação em que vivem: para que sobreviva, ela se passa por menino (com cabelo curto e roupas usualmente masculinas), e ele decide manter essa mentira com afinco. O instinto paternal de Caleb (quase de um animal com sua cria), sempre atento e alerta, define-o bastante nesse cenário devastador.

Mesmo assim, Affleck acerta em não deixar de mostrar que seu personagem é um homem com medos e prestes a desabar, tendo Rag não só como filha, mas sendo seu apoio emocional. Vemos isso também nas cenas do passado com sua esposa, em uma interpretação pontual de Elisabeth Moss. Affleck desenvolve tudo sem pressa, construindo perfeitamente a tensão do enredo e colocando momentos de ação e conflitos como temperos indispensáveis. A ambientação também agrega seu valor narrativo, onde o azul predominante adota uma frieza que torna os lugares sombrios, com poucas sequências mostrando raios de sol (elemento significativo para o roteiro). Detalhe que Affleck sempre procura trazer planos abertos, principalmente nas partes da floresta, mostrando o quanto somos pequenos nesse vasto mundo.

Sobre os subtextos, muito do que posso comentar soaria como spoiler, pois o longa reserva pequenas surpresas. Posso citar, então, a abordagem sobre o papel da mulher na sociedade e como o machismo é um sério problema, impedindo os homens de dialogarem harmoniosamente, e decidindo partir para o combate físico. É um ponto de vista bastante válido e bem trabalhado, demonstrando que a ausência das mulheres aumentou a agressividade masculina. A fragilidade emocional deles revela que, sem a presença feminina, não conseguiriam conviver em paz.

É uma narrativa pautada nos diálogos, que não seria a mesma sem as atuações de Affleck e Pniowsky. Ambos dão consistência para a trama, desenvolvendo uma interação que nos faz acreditar no amor fraternal entre eles. Vale ressaltar que A Luz no Fim do Mundo faz bom uso de edição e mixagem de som, aparecendo essencialmente quando as situações se intensificam. Isso nos faz sentir o impacto das agressões, além de mostrar o belo trabalho musical de Daniel Hart. No todo, o projeto dá quase total mérito do ótimo resultado para as conversas da dupla.

Pniowsky é um verdadeiro talento, já que sua expressividade e reações aos comentários de Affleck impressionam. Aliada ao roteiro, ela constrói uma personagem carismática, inteligente e que, apesar de demonstrar atitudes coerentes com sua idade, é muito mais adulta do que aparenta – algo que o pai demora a perceber. Affleck merece mais elogios, pois muito do seu olhar esclarece o que Caleb quer falar – quando ele precisa revelar um segredo, fica perceptível o terrível peso daquela informação. Para educar Rag, ele sempre procura resolver qualquer desentendimento ou algo mal explicado (ensinamentos que também aprendeu com a esposa), deixando um legado importante na menina – caso algo aconteça com ele.

A Luz no Fim do Mundo traz uma narrativa potente que ressalta a bonita relação de pai e filha. As atuações de Affleck e Pniowsky criam uma genuína conexão do público com o filme. Em meio ao caos, tudo que importa é não perdemos a humanidade, amor e esperança. Permito-me dizer que, apesar da boa tradução brasileira do título, o original (Light of My Life) representa totalmente a proposta. Uma mensagem importante para os dias assombrosos que estamos vivendo.

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