Atualmente, a Pixar é um dos melhores estúdios de animação no mundo – se não for o melhor. A alta qualidade de suas emocionantes produções vem aumentando conforme o tempo passa, assim como a expectativa dos fãs a cada novo lançamento. Felizmente, a nova propriedade da empresa, Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica supera as expectativas, levando para a tela uma história com muito coração num universo rico e, até então, inexplorado.

A trama começa apresentando um mundo de fantasia com tudo que tem direito, incluindo magia, monstros, criaturas variadas e uma pegada bem ao estilo RPG medieval, com aventureiros e masmorras. Só isso já seria incrível de ver num filme da Pixar, porém, é a cara do estúdio fugir do óbvio e nos apresentar algo fora da caixinha. Por isso, a trama se passa nesse mesmo universo mágico, mas anos no futuro, onde os reinos se modernizaram até se tornarem uma sociedade similar à nossa. A construção de mundo nesse longa é extremamente rica e detalhista, com destaque para as justificativas para ele ser daquele jeito. Por que tentar aprender a usar magia de iluminação, quando se pode simplesmente acender uma lâmpada? Por que um centauro correria, se pode ter um carro? E por aí vai. A trama também faz um excelente trabalho de quebra de expectativa, atualizando elementos clássicos medievais, como mantícoras, fadas, tavernas e unicórnios.

A história é focada na família de elfos Lightfoot, onde o irmão mais novo, Ian, tem medo de quase tudo, enquanto o mais velho, Stanley, só arruma confusão. Com isso, um representa o oposto do outro. O pai deles morreu antes de Ian o conhecer, mas, graças a uma magia, eles têm a possibilidade de encontrá-lo novamente durante um dia. A aventura começa quando o feitiço dá errado e precisam encontrar uma pedra mágica antes que o tempo acabe.

Logo na cena da apresentação da família, é possível notar que todos ali têm muita química, com interações naturais e orgânicas, como deveria ser. As motivações dos personagens são muito bem definidas desde o começo, com Ian se espelhando no pai para se tornar alguém mais sociável e comunicativo, enquanto Stanley é um rebelde incompreendido que liga mais para as coisas do passado – com magia e aventuras – do que seu próprio futuro. Graças a isso, acompanhar a trajetória dos dois é muito empolgante, sendo quase impossível não torcer para eles. Também é interessante ver os altos e baixos da relação, colocando a amizade e, principalmente, a confiança à prova.

Enquanto a trama principal se desenrola, o filme ainda encontra espaço para desenvolver personagens secundários. Todos têm espaço para concluirem seus arcos – inclusive a van que os personagens usam como transporte -, que no fim se unem de forma efetiva, ensinando alguma lição – normalmente relacionada a não esquecer das origens. Destaco a mãe, que participa de uma side quest também divertida, e o pai, que foi resolvido brilhantemente pelo roteiro através de uma comunicação apenas com os pés – a Pixar sabe passar emoções até quando tem apenas a metade de baixo de um personagem.

Um dos maiores méritos do longa é justamente seu roteiro, escrito por Keith Bunin, Jason Headley e o também diretor Dan Scanlon. Ele é muito bem amarrado, conta com total consciência dos seus atos e justificativas convincentes. É uma trama que realmente pensou em todos os detalhes e não há o que botar defeito. O fato dessa história estar diretamente ligada ao diretor e sua relação com o pai fica expresso na tela pela forma como esses momentos são tocantes e verdadeiros.

Como não poderia ser diferente, a Pixar também manda muito bem na animação, que está melhor do que nunca. Entre os detalhes mais aparentes, estão o suor dos personagens e a bela fotografia. Outro destaque é o uso criativo dos feitiços, injetando a carga de aventura, ação e – obviamente – magia.

Dois Irmãos tem todos os elementos que compõem um excelente filme da Pixar. Ele é divertido, emocionante e conta com diversas camadas em sua mensagem, atingindo todos os públicos. Dá para sentir o nível de polimento que a história passou até chegar no produto final, resultando numa experiência gratificante que dá vontade de ver mais.

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